terça-feira, 28 de julho de 2015

Para Além do Cérebro: Ecossocialismo ou barbárie: uma entrevista com Leo...

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A decadência urbana e a crise ecológica

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As Ruínas do Capitalismo

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Bétulas crescendo em livros apodrecidos, em Detroit Disassembled [Detroit Desmontada] (2010). Andrew Moore
Bétulas crescendo em livros apodrecidos, em Detroit Disassembled [Detroit Desmontada] (2010). Andrew Moore
Ao retratar a decadência urbana e a crise ecológica, a imagética da ruína mostra as pessoas e os lugares que o capitalismo deixou para trás Por Dora Apel, Jacobin | Tradução Maria Cristina Itokazu
As imagens do abandono e da decadência urbana produzidos pela desindustrialização e pelo desinvestimento estão em toda parte. E nenhuma cidade é tão retratada em livros, exposições, web sites, filmes e mídias populares quanto Detroit. Ainda que as paisagens desindustriais estejam espalhadas por todo o mundo, notadamente nos centros que costumavam liderar a produção fabril, Detroit tornou-se o exemplo mais evidente de decadência urbana, a metáfora global para o declínio capitalista e o epicentro de um gênero fotográfico: a imagética da ruína desindustrial.
Ao ressaltar a pobreza, a deterioração urbana e as crises econômica e ecológica, a imagética da ruína acentua o fato de que a sociedade capitalista é incapaz de proteger os seus cidadãos e as suas cidades. Enquanto os imperativos econômicos nacionais colidem com as demandas do capital globalizado, a decrepitude de cidades como Detroit, Buffalo e Cleveland, nos EUA, alimenta um pessimismo cultural ubíquo que prevê a desintegração violenta e o colapso — seja através de um vírus pandêmico, da destruição ecológica, da guerra ou da desindustrialização.
Daí o apelo paradoxal da imagética da ruína: conforme a fé num futuro melhor se desgasta, a beleza da decadência nos ajuda a lidar com o terror de um declínio apocalíptico. No imaginário cultural, a ideia de Detroit veio servir de repositório para o pesadelo do declínio urbano num mundo onde a maioria das pessoas vive em cidades.
A imagética da ruína em Detroit também tem outra função — ela circunscreve geograficamente e isola a ansiedade do declínio, fazendo dessa cidade predominantemente afro-americana uma espécie de zona alienígena. As onipresentes fotos de arranha-céus, igrejas, escritórios e casas dilapidados, de fábricas abandonadas como a da Packard — a maior ruína do país — são frequentemente comparadas com zonas de guerra, destroços de furacão e com o resultado de uma explosão nuclear.
Os efeitos do arruinamento são certamente eloquentes: em 2014, a taxa de desemprego em Detroit foi a mais alta entre as 50 maiores cidades e mais de três vezes maior do que a média nacional, enquanto a taxa de educação superior ficou abaixo da média. Os serviços públicos na cidade são lentos e inadequados mas os impostos territoriais são altos, o que para os residentes mais pobres representa uma ameaça permanente de execução de hipoteca e para a cidade significa mais casas dilapidadas e abandonadas. Quase 40% da população da cidade vive abaixo da linha da pobreza. Mas as fotos de bairros em desintegração, por natureza, explicam muito pouco a respeito das complexas causas desse declínio ou das ramificações do arruinamento para o futuro da cidade ou mesmo do país. Ao contrário, a cidade, tal como produzida através das imagens, assume diferentes significados em diferentes contextos. Na imaginação popular, Detroit é vista como exemplo de decadência urbana e como uma cidade singularmente mal administrada.
TEXTO-MEIO
Como ex-líder da produção manufatureira no mundo e, atualmente, como cidade debilitada predominantemente pobre e negra, Detroit é construída ao mesmo tempo como resultado de tendências econômicas irresistíveis e como uma cidade altamente racializada que causou seu próprio declínio por causa de líderes incompetentes ou corruptos.
Detroit é considerada uma demonstração tanto do declínio inescapável quanto de sua própria história de irresponsabilidade. Desse modo, o resto do país é levado a acreditar que a espiral descendente de Detroit é merecida, ou inevitável, ou uma combinação das duas coisas.
Essas concepções a respeito da cidade permitem que os verdadeiros agentes da degeneração — as corporações e o Estado capitalista — fujam da responsabilidade e justifiquem o controle da cidade pelo Estado, a falência forçada da cidade, o ataque às aposentadorias dos trabalhadores, a privatização dos serviços urbanos e outras medidas de austeridade.
Elas servem também como alerta para cidades e municípios em dificuldades do Maine à Califórnia. Atribuindo o ônus da dívida às pessoas pobres, negras e trabalhadoras sem responsabilizar ninguém, nem a própria cidade, por essas iniquidades, Detroit e suas representações assumem um papel fundamental na definição do futuro da vida nas cidades americanas.
Um tropo padrão na imagética da ruína é a sugestão da eterna luta entre natureza e cultura. As fotos de Andrew Moore, em Detroit Disassembled [Detroit Desmontada], ou Yves Marchand e Romain Mefre, em The Ruins of Detroit [As Ruínas de Detroit], são exemplos conhecidos focados na regeneração pastoral do ambiente construído.
Birches Growing in Decayed Books, Detroit Public Schools Depository  [Bétulas Crescendo em Livros Apodrecidos, Depósito das Escolas Públicas de Detroit], de Moore, mostra mudas de árvores que crescem num carpete de livros podres e apontam para o céu através de uma abertura no teto do antigo depósito de livros. A perspectiva diagonal ascendente e a luz morna criam um senso de renovação na adversidade, evocando o ciclo aparentemente natural que vai das árvores aos livros e de volta às árvores. Com suas cores vibrantes, a foto oferece um tributo comemorativo ao ressurgimento da natureza.
As fotos de Marchand e Meffre foram tiradas em situações nebulosas e obscuras. Frias e sem vida, elas sugerem um lamento melancólico por um estado de rigidez irreversível e mortal. A última imagem do livro mostra os próprios fotógrafos: duas silhuetas diminutas percorrendo uma ruela entre os prédios abandonados do complexo industrial da Packard. A ruela parece terra devoluta e as instalações desertas são uma metonímia para a cidade que, por implicação, também estaria vazia e abandonada. A imagem oferece uma despedida fúnebre, ainda que celebre a aparência pitoresca da cidade.
Parte Sul, fábrica da Packard Motors (2009) em As Ruínas de Detroit (2010). Yves Marchand e Romain Meffre
Parte Sul, fábrica da Packard Motors (2009) em As Ruínas de Detroit (2010).
Yves Marchand e Romain Meffre
São os dois lados de uma mesma estratégia estética. A foto de Marchand e Meffre lamenta o declínio da cidade como deserto desindustrial mesmo quando encontra beleza na decadência, enquanto a foto de Moore embarca em devaneios românticos sobre a luta entre natureza e cultura e vê a mesma beleza na decadência.
A metáfora da natureza retomando a idade, seja em termos negativos ou redentores, neutraliza os processos reais que têm um impacto tão destrutivo sobre a cidade: um racismo virulento, o antissindicalismo e a reestruturação industrial. Essa neutralização é agravada pelo fato de que a maior parte das imagens raramente mostra a multidão urbana — muitos observadores se surpreendem ao saber que Detroit ainda tem quase 700.000 residentes.
Em dezembro de 2013, o New York Times publicou três fotos de Marchand e Meffre para ilustrar um artigo de primeira página anunciando a decisão de uma corte federal que autorizava Detroit a declarar falência sem proteção para as aposentadorias municipais.
A foto superior mostrava a Estação Central de Michigan, uma estrutura cívica grandiosa cujo abandono serve como símbolo do fracasso urbano. Abaixo, imagens do antes luxuoso salão de baile do Lee Plaza hotel, com seu teto finamente pintado e um piano caído de lado, e da sala de aula de uma antiga escola católica.
A primeira página do NYT de 4 de dezembro de 2013, com destaque para três fotos de locais abandonados retratados por Yves Marchand e Romain Meffre
A primeira página do NYT de 4 de dezembro de 2013, com destaque para três fotos de locais abandonados retratados por Yves Marchand e Romain Meffre
Omitindo a presença ativa das pessoas na cidade e a resposta local de luta contra a decisão judicial, o trio de fotos de primeira página sugeria uma cidade já morta e mumificada. Isso era reforçado pela legenda em negrito, “Visões de uma cidade perdida”, que por sua vez dava suporte ideológico para o corte nas aposentadorias dos servidores municipais: se a cidade já está perdida, não é preciso se preocupar com milhares de pessoas que lutam para sobreviver ou proteger suas magras aposentadorias (em média apenas $19.200 por ano).
Se as vítimas do declínio da cidade desaparecem, o discurso do arruinamento se torna um discurso sobre a arquitetura, a paisagem e a inevitável “retomada” da cidade pela natureza, o que pode significar tanto um retorno a um estado pré-civilizado quanto a reemergência de um novo idílio ecológico. Fotos que se concentram apenas na beleza da decadência na arquitetura afastam o observador dos efeitos dessa decadência sobre as pessoas e obscurece a crise da pobreza e desemprego que está em curso.
Esse apagamento da população também reflete e reforça sua invisibilidade para as corporações e o Estado capitalista, que ajudaram a criar os padrões de pobreza segregada e racializada que há muito prevalecem na cidade e ao mesmo tempo se isentaram de qualquer responsabilidade.
A questão não é sugerir o que artistas e fotógrafos deveriam ou não deveriam retratar; ao invés disso, é importante examinar o trabalho cultural realizado pela imagética da ruína e o uso político a que ela se presta. A narrativa romântica sobre a beleza da decadência presente na imagem da ruína produz prazer por conter e controlar a ansiedade do declínio através da segurança e da distância da representação.
Essa é a função cultural da imagética da ruína; o domínio mental daquilo que nos apavora é sua natureza e propósito. Ainda que ela evidencie os efeitos desastrosos do capitalismo, quanto mais esteticamente refinada e agradável for a imagem mais efetivo é o distanciamento.
Não é de surpreender que a proliferação de imagens da ruína tenha ativado um debate sobre a “pornografia da ruína”, expressão que questiona se tais fotos deveriam ser desconsideradas por serem voyeurísticas e abusivas ou se elas dão visibilidade a algo que de outra forma poderia ficar escondido da história. A crítica da pornografia da ruína depende de uma dicotomia entre os “de dentro” e os “de fora”, entre aqueles que se veem como leais à cidade, cuja vida e trabalho são afetados pela cidade (e portanto adquiriram o direito de lucrar com ela), e aqueles que estão apenas “de passagem”.
Para muitos dos moradores pobres de Detroit, as imagens de ruínas na mídia nacional são uma fonte de desmoralização e constrangimento — independentemente de quem fez a foto — e existem muitos fotógrafos locais que registram a paisagem decadente. Eles temem a marginalização irreversível da cidade e a indiferença de uma nação que vê a cidade a partir de uma posição de fascinação estetizada, a uma distância confortável.
Essa sensação de impotência evoca sentimentos de raiva e ressentimento — não contra as condições da cidade diretamente, mas contra as imagens que retratam essas condições. Elas parecem agravar essas condições por divulgá-las, fazendo a cidade parecer estranha e patética e, talvez o pior de tudo, estimulando a compaixão como resposta despersonalizada ao “sofrimento longínquo”, como acontece com as fotos de crianças famintas na África.
Mas a história está repleta de cenas de desastre e decadência que atraem fotógrafos e repórteres de fora, e eles são responsáveis tanto por um sem número de imagens indeléveis quanto pela história escrita. Retratar a miséria sempre carrega um risco de abuso, mas as imagens também são testemunhas da história. Como todas as testemunhas, são subjetivas e imperfeitas. Ainda assim, elas oferecem perspectivas que de outra forma não estariam disponíveis.
A “pornografia da ruína” é, portanto, uma ferramenta de análise crítica altamente problemática, porque o apetite pelas imagens da ruína só cresce conforme o abandono e a decadência se espalham, e porque os moradores da cidade não têm “direito de propriedade” sobre as ruínas. As ruínas de Detroit, como as de Baltimore ou St Louis, são ruínas dos EUA.
Essa imagética intensifica visualmente a realidade da deterioração econômica e cultural. Esses efeitos devastadores ficam tão cruamente visíveis nos serenos retratos da decadência que eles induzem uma série de emoções, desde o prazer até a inquietação. Assim como a arte e a literatura românticas, que criticavam as pretensões imperiais do império, a imagética da ruína contemporânea também funciona como uma crítica implícita do status quo doméstico americano. A estética da decadência serve como um aviso de declínio na medida em que as imagens participam, conscientemente ou não, da construção da narrativa dominante a respeito de Detroit.
Essas imagens podem lamentar, elogiar ou celebrar a decadência que representam; podem criticar implicitamente as forças ou os efeitos do declínio; podem acolher a beleza ou a melancolia desses efeitos; mas não podem disfarçar o impasse do progresso que as ruínas representam. Conforme o medo do declínio aumenta, o limiar do prazer estético compensatório também cresce, exigindo mais imagens de deterioração e desastre pós-apocalíptico para alcançar uma sensação de segurança. Desse modo, a imagética da ruína se investe de um poder cultural ainda maior.
Não é de surpreender que a fascínio das ruínas urbanas de Detroit tenha se intensificado no momento em que a cidade negociava sua falência. E apesar da narrativa que busca marginalizar e isolar a cidade como responsável por seu próprio declínio, Detroit se tornou um símbolo das cidades fragilizadas em qualquer lugar.
Ainda assim, ao desafiar a lógica do neoliberalismo e do Estado capitalista como um protetor efetivo dos seus cidadãos e uma fonte de progresso e racionalidade, a imagética da ruína também nos desafia a considerar como as nossas decadentes cidades podem ser recuperadas e reimaginadas.
Ela nos convida a pensar sobre a reorganização econômica e o planejamento democrático, partes importantes da construção de uma sociedade igualitária baseada em necessidades e não no lucro — onde as cidades obedecem os requisitos de sua população, fornecendo as bases para a realização individual e ajudando a preservar o meio ambiente.
TEXTO-FIM
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sábado, 25 de julho de 2015

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escravos em fazenda de deputados

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‘Encontrei escravos até em fazenda de deputados’, diz fiscal

Marinalva Dantas, que atuou como fiscal do Ministério do Trabalho, disse já ter resgatado 1,5 mil pessoas

atualizado às 17h36

Quando perguntam a Marinalva Dantas quantos trabalhadores escravos ela libertou no Brasil, ela diz: "Pessoalmente, resgatei 1,5 mil pessoas. Com outros colegas, foram mais de 2 mil".
Os números podem estar subestimados. O recém-publicado livro (Editora Saraiva), do jornalista Klester Cavalcanti, diz que 2.354 foram libertadas desde 1995 - ou em operações lideradas por Dantas como fiscal ou em operações de uma equipe especial do Ministério do Trabalho da qual ela participava.
Todos estes casos ocorreram em zonas rurais, em fazendas de Estados das regiões Centro-Oeste e Norte do país, onde há pouco controle sobre as relações de trabalho e muitos abusos.
Nascida em uma família pobre e criada por tios que tinham uma situação financeira melhor, Dantas diz que escolheu sua profissão ao ser confrontada com cenas de miséria.
Ela já dirigiu a Divisão de Articulação de Combate ao Trabalho Infantil do Ministério do Trabalho e atualmente trabalha como auditora-fiscal do trabalho em Natal, no Rio Grande do Norte.
 Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
Eu seu trabalho, Marinalva Dantas se deparou com miséria, exploração, tortura e assassinatos
Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
Aos 61 anos, diz que seu trabalho afetou negativamente a vida de seus filhos e seu casamento, mas garante que também lhe trouxe muitas satisfações.
Em entrevista para a BBC Mundo, Dantas avalia que o país fez avanços importantes no combate à escravidão moderna, mas que ainda há dezenas de milhares de trabalhadores nesta condição.
BBC Mundo - O que mais te marcou em seu trabalho?
Marinalva Dantas -
As cenas mais chocantes que guardo na memória envolvem crianças. Imagine um menino trancado em uma propriedade, sem saber como é o resto do mundo. Ele só conhece aquele pequeno espaço onde seus pais e ele trabalham. Cresce ali dentro e não sabe que existem casas de tijolos, com brinquedos, música, pão.
Eles só conhecem casas de plástico preto, amarelo ou azul. Estas são as cores da miséria do trabalho escravo. Eles não conhecem o branco do leite, porque até na fazendas de gado só têm direito a farinha, feijão e arroz.
Uma criança perdeu um olho trabalhando em uma fazenda de médicos. Outro tinha um único brinquedo: a motosserra. Ele a montava e a desmontava. Para ele, era uma atividade lúdica e não percebia a atrocidade deste fato.
BBC Mundo - Qual era a situação dos trabalhadores escravos que encontrou?
Dantas -
Uma das piores desgraças que pode haver na escravidão é o assassinato. Alguns foram torturados, mas não chegaram a morrer, porque levam surras com o lado plano do machado, que não corta. Eles ficam com as marcas. Isso é uma das coisas mais terríveis que podem acontecer para eles, porque elas ficam à vista de seus colegas, que baixam a cabeça para que a vítima não tenha tanta vergonha.
A partir daí, o único caminho que encontra na vida é fugir, mesmo se arriscando a morrer. Isso ainda acontece. A escravidão está cada vez mais escondida. Mas sempre há alguém que consegue fugir, diz de onde vem e leva uma equipe a este lugar.
BBC Mundo - Você denunciou o caso de um homem que foi castigado por pedir um copo d'água.
Dantas -
Sim, foi no Pará, em 2011. Ele pediu, porque estava bebendo uma água imunda. Ele disse que era muito suja e cheia de bichos. Então, ele pediu uma água limpa porque acreditava que tinha esse direito, que é uma das primeiras coisas que pensamos em termos de dignidade humana. Mas percebeu que era uma afronta exigir algum direito, por mínimo que fosse.
Ele levou uma surra diante dos outros para que servisse de exemplo e ninguém ousasse reivindicar alguma coisa, porque eles não eram nada. Quando ele me contou isso, não aguentei e chorei.
 Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
Alojamento de trabalhadores escravos foi descoberto por Dantas em uma de suas operações
Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
BBC Mundo - Estes casos mantêm a forte ligação racial que tinha antes a escravidão no Brasil? São todos negros?
Dantas -
Não. Se fossem todos negros, chamaria mais a atenção, porque a escravidão antiga era assim. Como foi abolida, começaram a escravizar homens livres de qualquer cor: encontramos escravos ruivos de olhos azuis, do sul do país, índios, negros, mulatos...
Hoje, não tem uma conotação de cor nem raça. É de pobreza e miséria. Pessoas vulneráveis, que cometeram algum delito e estão fugindo da Justiça. Há pessoas com lepra e que, por sentirem-se rechaçadas pela sociedade, tentam se esconder. Pessoas endividadas, passando fome por problemas climáticos ou econômicos. Os vulneráveis são atraídos pelos que escravizam.
BBC Mundo - E entre os que escravizam há pessoas educadas e poderosas?
Dantas -
Sim. Já encontrei escravos até em fazendas de deputados e de um presidente de uma Assembleia Legislativa do Estado do Rio. E eles acham isso absolutamente normal. Não sentem vergonha quando são descobertos.
BBC Mundo - E o que acontece com eles quando são descobertos? Vão presos?
Dantas -
Há algumas pessoas que têm foro privilegiado por seus cargos, então, não podem ser processados na Justiça comum. Eles usam todos os recursos legais possíveis. São tantos que, quando a pessoa é condenada de fato, ela já está morta. Se a pessoa tem dinheiro e bons advogados, dificilmente será presa.
BBC Mundo - Já recebeu ameaças por causa de seu trabalho?
Dantas -
Pessoalmente, fui ameaçada duas vezes. Uma por telefone, anônima. A pessoa disse que estava me seguindo e sabia tudo o que eu fazia. Também recebi uma proposta indecente de um advogado de um fazendeiro para que eu dissesse o que seria necessário para negar tudo o que estava vendo no local.
Disse que não podia negar aquilo, porque era real. Depois, soube que eu constava em uma lista da morte do Pará. Mas, enquanto estava na ativa, nunca soube.
 Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
Dantas em uma operação contra a escravidão moderna no Pará
Foto: Reprodução / BBCBrasil.com
BBC Mundo - Quantas pessoas ainda se encontram em situação de escravidão no Brasil?
Dantas -
O conceito legal (trabalho escravo) foi ampliado no país. Se a lei fosse como é hoje quando começamos, em só 15 dias teríamos tirado 23 mil escravos do Estado de Alagoas em 1995. Mas a lei era muito rígida na caracterização do trabalho escravo. Quando mudou, foram incluídas condições de trabalho degradantes como uma das formas de considerar um trabalho escravo. Isso aumentou o número de escravos no Brasil, por isso são muitos.
Com o conceito legal antigo, diziam haver 25 mil brasileiros escravizados. Já libertamos 50 mil. E, com a ampliação do conceito, às vezes em uma única fazenda de cana de açúcar, encontramos 3 mil pessoas nesta condição. Se você calcula quantas fazendas de açúcar, gado, soja e algodão existem, dá um número exorbitante. Dizer que são 150 mil não seria um exagero.
Mas, agora, o Congresso está querendo retirar este avanço da legislação, dificultar a configuração do trabalho escravo e proteger os escravizadores de perderem suas terras. A população ainda não se deu conta disso.
BBC Mundo - Como é possível que isso ainda ocorra no Brasil?
Dantas -
É algo muito escondido e naturalizado. As pessoas não veem como uma condição de escravidão. Também apostam no lucro. Arriscam, porque, quando são descobertos, ainda compensa para eles o tempo que passaram explorando trabalhadores sem pagar nenhum direito. Eles pagam com feijão e arroz. Intimidam as pessoas, que não podem sair da propriedade. O objetivo é esse: o lucro desmedido.
BBC Mundo - O que precisa mudar para que isso acabe?
Dantas -
A vontade política é fundamental. Acreditamos que vamos conseguir, porque a sociedade está cada vez mais consciente. Antes, tínhamos que provar que existia o trabalho escravo, porque nos ridicularizavam. Agora, está devidamente provado que a escravidão existe.
Quando me deparei com cenas fortes, disse: "Esta é minha luta e vou dedicar a minha vida a acabar com isso". Então, os brasileiros precisam entender que de nada serve um hino nacional que menciona duas vezes a palavra "liberdade" se há cidadãos que não são livres. Precisam deixar de comprar roupas fabricadas com trabalho escravo, azeite extraído por escravos. Tenho confiança. Se não tivesse, não estaria lutando.
BBC Mundo - Como este trabalho afetou sua vida?
Dantas -
Afetou muito minha vida familiar, porque meus filhos foram muito afetados pela minha ausência. Por causa da sua idade, eles não tinham condições de entender o que sua mãe estava fazendo. E tinham muito medo deste mundo onde eu estava, de que não voltasse. Isso afetou muito a vida de meus filhos e de meu casamento, que terminou, porque uma esposa à distância não é algo bom para nenhum marido.
BBC Mundo - E que satisfações te trouxe?
Dantas -
Ver a felicidade em cada libertação que fazíamos. Ver um homem sentindo-se normal. Ver eles se arrumando e se produzindo para voltar à "vida civilizada". Eu sempre ia até eles arrumada, para que percebessem que havia um mundo normal esperando por eles.
As principais notícias da manhã no Brasil e no mundo (02/07)
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