terça-feira, 29 de setembro de 2026

MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM

 AS MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM E A PROIBIÇÃO COMO ACERTO HISTÓRICO

∞ Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes – Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – Pesquisador Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente e Política

 

I. À GUISA DE ANTELÓQUIO: O RASTRO DE SANGUE QUE A MÍDIA NÃO MOSTROU

Início fazendo uma pergunta direta e brutal: quantas mortes, quantos assassinatos já ocorreram em família por causa dos vícios nos jogos nas bets? E mais: é um acerto social o governo Lula ter proibido as bets?

 

A resposta exige coragem para encarar o que a grande mídia, financiada pelos anunciantes das bets, preferiu esconder. Exige também rigor para separar o que é dado empírico do que é retórica política.

 

Não há um número oficial consolidado de mortes diretamente atribuídas às bets no Brasil — porque o Estado nunca tratou o problema como questão de saúde pública, e a Justiça arquivou processos por falta de provas. Mas os rastros existem. E são profundos.

 

II. O QUE OS DADOS REVELAM

2.1. Os custos sociais mensurados

Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde [IEPS] estimou que os danos associados a apostas e jogos de azar no Brasil geram um custo social anual de R$ 38,8 bilhões. Desse total:

a.        R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio;

b.       R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão;

c.        R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão;

d.       R$ 1,3 bilhão por perda de moradia;

e.        R$ 2,1 bilhões em benefícios de seguro-desemprego;

f.         R$ 4,7 bilhões por encarceramento decorrente de atividade criminal.

 

O dado é estarrecedor: R$ 17 bilhões — quase metade do custo social total — estão associados a suicídios ligados ao vício em apostas.

 

2.2. A subnotificação e o silêncio institucional

Esses números, porém, são estimativas. A realidade pode ser pior.

Em julho de 2026, a influenciadora e servidora do IML de Anápolis [GO], Sharen Machado, relatou publicamente que, em apenas três plantões recentes, presenciou seis casos de autoextermínio com relatos de familiares ligando as mortes a dívidas de apostas.

 

“Atinge todos os públicos: de gente rica a gente pobre, de pessoas com empregos dos sonhos a baixa renda, de jovens a pessoas mais idosas... deixando carta, falando que não aguentava mais e tirando a própria vida”, detalhou a servidora.

 

A professora Vânia, de Uberlândia [MG], perdeu o filho Rafael Borges Amaral, de 26 anos, para o suicídio após meses de endividamento e isolamento causados pelo vício em bets. Ela tentou responsabilizar os influenciadores que bombardearam o filho com publicidade, mas a Polícia Civil e o Ministério Público arquivaram o caso por falta de provas.

 

“A polícia me recebeu com bastante indiferença. Por ser um auto-extermínio, pressupõe-se que não há uma pessoa que tenha diretamente contribuído para a morte”, desabafou Vânia.

 

2.3. A violência intrafamiliar

A violência doméstica associada às apostas é outro dado que emerge dos estudos. Segundo dados compilados no dossiê “Brasil Sem Azar”, 45% dos casos de dívidas com apostas relatam impacto direto na família, com escalada de conflitos financeiros, tensão psicológica, negligência familiar e rupturas.

 

O caso mais brutal documentado ocorreu em Vespasiano [MG], em julho de 2025. Matteos França Campos, de 32 anos, estrangulou a própria mãe, a professora de História Soraya Tatiana Bomfim França, de 56 anos, após uma discussão sobre dívidas com apostas online. Ele ocultou o corpo sob um viaduto, simulou o desaparecimento da mãe e tentou despistar os investigadores.

 

A delegada responsável foi categórica: “Ele participava de jogos de apostas na internet, o que o levou a ter um colapso financeiro. Esse problema foi motivo de várias discussões entre eles”.

 

Este é um assassinato em família diretamente ligado a bets.

 

III. A PROIBIÇÃO: ACERTO OU OPORTUNISMO ELEITORAL?

3.1. O que a proibição representa

Em 25 de setembro de 2026, o governo Lula publicou a Medida Provisória 1.394/2026, proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida revogou a regulamentação anterior [Lei 14.790/2023] e determinou que as plataformas saiam do ar a partir de 6 de outubro.

 

A decisão veio nove dias antes das eleições de 4 de outubro, o que gerou acusações de oportunismo eleitoral.

 

3.2. O contexto histórico: quem criou o problema

Para avaliar se a proibição é um acerto, é preciso entender a trajetória:

1.      2018 – Governo Temer: As apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei 13.756/2018, no apagar das luzes do governo Michel Temer. A lei previa regulamentação em até quatro anos.

2.      2019-2022 – Governo Bolsonaro: A regulamentação não foi feita. As bets operaram sem regras por pelo menos cinco anos, devastando famílias e drenando bilhões da economia popular.

3.      2023 – Governo Lula: O governo enviou ao Congresso a regulamentação. Lula sancionou a Lei 14.790/2023, que criou regras de licenciamento, tributação e proteção ao consumidor.

4.      2024 – Regulamentação em vigor: A partir de 1º de janeiro de 2025, as bets autorizadas passaram a operar sob regras — proibição de cartão de crédito, vedação de bônus, restrições à publicidade, mecanismos de autoexclusão.

5.      2026 – A proibição: Diante da constatação de que a regulação não funcionou — os danos sociais continuaram, as perdas das famílias atingiram R$ 62,5 bilhões, e as suspeitas de lavagem de dinheiro se multiplicaram — o governo optou pela proibição total.

 

3.3. O acerto social

Sim, a proibição é um acerto social.

Os argumentos são sólidos:

1.      A regulação falhou em proteger os vulneráveis. A lei determinava que empresas bloqueassem usuários compulsivos, mas “isso nunca ocorreu”, segundo o advogado Júlio Leone.

2.      O modelo de negócio é predatório por natureza. As bets não são entretenimento; são máquinas de extração de renda da população pobre. Dados do Banco Central mostram que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para bets em agosto de 2024.

3.      As perdas das famílias são insustentáveis. Só no último ano, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets—uma média de R$ 4,7 bilhões por mês.

4.      O custo em vidas humanas é inaceitável. R$ 17 bilhões em suicídios. Seis autoextermínios em três plantões. Uma mãe estrangulada pelo filho. Uma professora que perdeu o filho e não conseguiu justiça. Esses números e histórias não são abstratos — são o preço que a sociedade pagou pela omissão do Estado.

 

3.4. O que a proibição não resolve

A proibição é um avanço, mas não é suficiente. É preciso:

a.        Tratamento para os viciados: O SUS precisa de uma rede de acolhimento para ludopatas. Já há esforços nesse sentido, mas são insuficientes.

b.       Responsabilização dos influenciadores: A professora Vânia quer ver os influenciadores na Justiça. Ela os chama de “traficantes modernos”. A CPI das Bets rejeitou o relatório final que pedia o indiciamento de 16 responsáveis por empresas de apostas e influenciadores.

c.        Combate ao mercado ilegal: A proibição atinge as bets autorizadas, mas o mercado clandestino pode prosperar. A fiscalização é essencial.

d.       Educação financeira e prevenção: É preciso ensinar as crianças e jovens que apostar não é investimento — é ilusão.

 

IV. CONCLUSÃO: UM ACERTO COM GOSTO DE URGÊNCIA

O governo Lula acertou ao proibir as bets. Mas acertou tarde — tarde demais para Soraya, tarde demais para Rafael, tarde demais para os seis suicidas de Anápolis, tarde demais para as milhares de famílias destruídas.

 

A proibição foi anunciada a nove dias das eleições, o que levanta a suspeita de oportunismo. Mas a suspeita não invalida o acerto. Se o governo tivesse proibido as bets em 2023, quando sancionou a regulação — ou em 2024, quando Lula disse “se a regulação não der conta, eu acabo com elas” — o rastro de mortes seria menor.

 

O problema não é a intenção. É o tempo.

A pergunta que fica é: por que o Brasil esperou tanto? Por que a CPI das Bets foi arquivada? Por que a Polícia Civil tratou o caso de Rafael com “indiferença”? Por que a grande mídia, que lucrou com a publicidade das bets, só agora noticia o problema?

 

A resposta está na mesma lógica que eu denuncio em meus escritos: o capitalismo transforma a vida em mercadoria e a morte em estatística. As bets eram [e são] um negócio lucrativo. Os influenciadores ganhavam comissão. As plataformas de mídia faturavam com anúncios. O Congresso estava capturado.

 

A proibição das bets é um acerto. Mas é um acerto arrancado à força — pela pressão da sociedade civil, pelas mães que perderam filhos, pelos profissionais de saúde que viram o colapso nos CAPS, pelos servidores do IML que contam os corpos.

 

Não é uma vitória do governo. É uma vitória da resistência.

 

— Porque a vida não é um jogo. E a morte não é uma aposta.

 

Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes

Em diálogo holístico e transdisciplinar com a sociedade vítimizada pelas bets e políticos...

Imperatriz [MA], 29 de setembro de 2026

 

Contatos:
prof.negreiros@gmail.com
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ACREDITAR; CRER — A FÉ COMO FUNDAMENTO, A CRENÇA COMO ARMADILHA

 ACREDITAR; CRER — A FÉ COMO FUNDAMENTO, A CRENÇA COMO ARMADILHA

Ensaio Metafilosófico, Metafísico, Antropológico e Fenomenológico

Uma leitura de cenário com análise de conjuntura sobre o ato de acreditar

∞ Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes – Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – Pesquisador Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente e Política

 

 

I. PRÓLOGO — A PERGUNTA QUE NOS HABITA

Estamos o tempo todo, todo o tempo, na busca pelo que acreditar; de crer em algo, em alguma coisa. Ou não.

 

O que significa, verdadeiramente, acreditar? E crer? E qual a diferença — se é que há — entre essas duas palavras que usamos como sinônimos, mas que carregam abismos de significado?

 

Desde o primeiro vagido, antes mesmo da linguagem, o ser que viríamos a chamar de humano já buscava algo em que se apoiar. A mãe, o seio, o calor, a voz. Depois, os deuses, os mitos, os heróis. Depois, a ciência, a razão, a verdade. Depois — sempre — a dúvida.

 

Acreditar não é um ato entre outros. É o ato fundador. Antes de pensar, acreditamos. Antes de saber, cremos. Antes de ser, somos aquilo que acreditamos ser.

 

Mas o que significa, verdadeiramente, acreditar? E crer? E qual a diferença — se é que há — entre essas duas palavras que usamos como sinônimos, mas que carregam abismos de significado?

 

Este ensaio é uma travessia por esse abismo. Uma travessia metafilosófica — porque interroga os fundamentos do próprio filosofar. Metafísica — porque busca o que está para além da física, para além do dado imediato. Antropológica — porque pergunta pelo humano, por sua condição, por seu destino. Fenomenológica — porque parte da experiência vivida, da consciência que se volta sobre si mesma e se pergunta: o que é isso que eu chamo de crer?

 

E é, também, uma travessia pessoal. Eu, Professor Negreiros — que assina este ensaio — chega aos 70 anos e uns meses sem conseguir acreditar que etimológica e morfologicamente somos imagem e semelhança de deus; e seres humanos em sua essência.

Esta é a minha pergunta. E é, também, a pergunta de todos nós.

 

II. PARMÊNIDES E A CRENÇA NO SER — O PONTO DE PARTIDA

2.1. O poeta do ser

Parmênides de Eleia, no século VI a.C., escreveu um poema — Sobre a Natureza — no qual narra uma viagem iniciática. Uma deusa o conduz por um caminho que se bifurca: o caminho da verdade [alétheia] e o caminho da opinião [dóxa].

 

No caminho da verdade, Parmênides descobre que o ser é, e o não-ser não é. Tudo o que existe participa do ser. Nada pode surgir do nada. Nada pode se dissolver no nada. O ser é uno, eterno, imutável, indivisível.

 

No caminho da opinião, Parmênides encontra o mundo dos mortais — o mundo do devir, da mudança, da multiplicidade, da aparência. É o mundo em que acreditamos viver. Mas é um mundo de crenças, não de verdades.

 

2.2. A crença como caminho da opinião

A grande contribuição de Parmênides para a nossa reflexão é esta: a crença pertence ao caminho da opinião. Não é conhecimento verdadeiro. É dóxa — aparência, conjectura, suposição.

 

Quando acreditamos, não estamos no caminho da verdade. Estamos no caminho da opinião. E o caminho da opinião é o caminho da pluralidade, da contradição, do erro.

 

Acreditar é, portanto, reconhecer que não sabemos. É admitir que nossa relação com o mundo não é de certeza, mas de fé — uma fé que pode ser bem ou mal fundada, mas que é sempre fé.

 

O que Parmênides nos ensina é que a crença não é um defeito. É uma condição. Não podemos viver sem acreditar. Mas podemos — e devemos — examinar aquilo em que acreditamos.

 

III. A METAFÍSICA DA CRENÇA — O QUE ESTÁ EM JOGO QUANDO CREMOS

3.1. A crença como relação com o absoluto

Toda crença é uma relação com algo que transcende o sujeito que crê. Cremos em algo — em Deus, na ciência, no amor, na justiça, no outro. E esse algo, por definição, não está disponível para verificação imediata.

 

Crer em Deus é crer em algo que não se vê. Crer na ciência é crer em métodos que não dominamos integralmente. Crer no amor é crer em algo que não se pode provar. Crer no outro é crer em alguém que nunca será totalmente conhecido.

 

A crença é, portanto, uma relação com o absoluto — ou, ao menos, com algo que se apresenta como absoluto para quem crê. E é essa relação que dá sentido à vida.

 

3.2. A metafísica da dúvida

Mas se toda crença é uma relação com o absoluto, então a dúvida é a sombra da crença. Não há crença sem dúvida. Não há fé sem incerteza. Não há certeza que não seja assombrada pela possibilidade do erro.

 

Chega Eu aos 70 anos e uns meses sem conseguir acreditar que somos imagem e semelhança de deus. Essa incapacidade de crer não é um defeito — é uma conquista. É o resultado de uma vida inteira de questionamento, de observação, de experiência.

 

A dúvida não é o contrário da fé. É o seu fundamento. Só quem duvida pode crer verdadeiramente — porque só quem duvida sabe o que está em jogo.

 

IV. A ANTROPOLOGIA DA CRENÇA — O HUMANO COMO ANIMAL CRENTE

4.1. A condição humana como busca de sentido

O que distingue o humano dos outros animais não é a razão — os animais também raciocinam. Não é a linguagem — os animais também se comunicam. Não é a ferramenta — os animais também usam ferramentas.

 

O que distingue o humano é a necessidade de sentido. O humano não se contenta em viver; ele precisa saber por que vive. Não se contenta em morrer; ele precisa saber o que há depois da morte. Não se contenta em sofrer; ele precisa saber qual o sentido do sofrimento.

 

E como o sentido não está dado — não é acessível aos sentidos, não é demonstrável pela razão — o humano precisa acreditar. A crença é a resposta à pergunta pelo sentido. É o que preenche o vazio que a razão não consegue preencher.

 

4.2. O humano como animal que crê

Aristóteles definiu o humano como zoon logon echon — o animal que tem logos, razão, palavra. Mas talvez a definição mais precisa seja outra: o humano é o animal que crê.

 

Crer é a atividade mais humana que existe. Nenhum outro animal crê. Nenhum outro animal se pergunta pelo sentido. Nenhum outro animal se angustia com a morte. Nenhum outro animal constrói templos, escreve poemas, cria filosofias.

 

O humano é o animal que precisa crer — porque não pode suportar o vazio. E é essa necessidade que o torna vulnerável à manipulação.

 

V. A FENOMENOLOGIA DA CRENÇA — O QUE ACONTECE QUANDO CREMOS

5.1. A experiência da crença

Fenomenologicamente, a crença não é um conteúdo mental entre outros. É uma estrutura da consciência. Quando creio, minha consciência se volta para um objeto que ela posta como verdadeiro — mas que ela não pode verificar.

 

A crença é, portanto, um ato de posição. Eu posiciono algo como verdadeiro. Eu aposto que é assim. Eu me entrego àquilo que creio.

 

Essa entrega não é passiva. É ativa. Crer é decidir crer. É escolher acreditar. É assumir o risco da fé.

 

5.2. A intersubjetividade da crença

Mas a crença não é apenas individual. É também social. Cremos com os outros. Cremos porque os outros creem. Cremos para pertencer.

 

A crença é, portanto, intersubjetiva. Ela nos conecta aos outros — e, ao fazê-lo, nos submete aos outros. Quem crê junto com uma comunidade aceita as crenças dessa comunidade. E, ao aceitá-las, entrega parte de sua autonomia.

 

É aqui que a crença se torna perigosa. Porque quem controla as crenças de uma comunidade controla essa comunidade.

 

VI. A CRENÇA COMO ARMADILHA — A MANIPULAÇÃO DA FÉ

6.1. O mercado da fé

Afirmo: "É daí que surge o homem a nos enganar pela manipulação da crença na fé que sabe ele buscamos. Com isso ele nos escraviza, nos controla/domina pelo o que queremos acreditar, e cremos."

 

Essa é uma das mais profundas intuições deste ensaio. A crença — que deveria ser o caminho para o sentido — torna-se o caminho para a servidão... humana.

 

O mercado da fé é um dos mais lucrativos do mundo. Igrejas, seitas, cultos, religiões — todas exploram a necessidade humana de crer. Vendem sentido, prometem salvação, oferecem esperança. E, em troca, pedem obediência, dinheiro, poder.

 

6.2. A indústria da crença

Não é apenas a religião que explora a crença. É também a política — que vende promessas. É também a mídia — que vende narrativas. É também a publicidade — que vende sonhos. É também a ciência — que vende certezas.

 

Vivemos em uma indústria da crença. Todos querem que acreditemos em algo. Todos querem nos convencer. Todos querem nos controlar pela fé.

 

E o pior: nós queremos ser controlados. Queremos alguém que nos diga o que crer. Queremos uma autoridade que nos livre da angústia da dúvida. Queremos um pai que nos proteja do vazio.

 

É por isso que tenho razão: a crença nos escraviza — porque nós mesmos desejamos a escravidão.

 

VII. A CRÍTICA DA CRENÇA RELIGIOSA — DEUS COMO PROJEÇÃO

7.1. Feuerbach e a projeção antropológica

Ludwig Feuerbach, no século XIX, formulou a tese que ecoa até hoje: Deus é a projeção da essência humana. Não é o homem que foi criado à imagem de Deus; é Deus que foi criado à imagem do homem.

 

O homem projeta no céu suas qualidades — e seus defeitos. Se é raivoso, cria um Deus irado. Se é vingativo, cria um Deus punitivo. Se é escravocrata, cria um Deus que legitima a escravidão.

 

O deus bíblico — como afirmo em outros textos — é uma entidade escravocrata, raivosa, malévola, rancorosa, punitiva, vingativa, ditadora. Não porque Deus seja assim, mas porque os homens que o criaram eram assim.

 

7.2. A desconstrução da imagem e semelhança

Afirmo: "Chego aos meus 70 anos e uns meses sem conseguir acreditar que etimológica e morfologicamente somos imagem e semelhança de deus; e seres humanos em sua essência."

 

Essa é uma desconstrução radical. Não apenas da imagem de Deus, mas da imagem do humano. Se não somos imagem de Deus, o que somos? Se não somos humanos em essência, o que somos?

 

A minha resposta é ao mesmo tempo poética e brutal: "Quem [Eu] Sou?! Não sou!! No espaço-tempo cronológico, fui e serei o que [Eu] acredito/creio. Fomos e seremos o que acreditamos/cremos."

 

Não somos ser. Somos devir. Não somos essência. Somos crença. Não somos substância. Somos processo.

 

VIII. A METAFÍSICA DO DEVIR — HERÁCLITO CONTRA PARMÊNIDES

8.1. O rio de Heráclito

Se Parmênides diz que o ser é, Heráclito diz que tudo flui. Ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio mudou, e quem entra também mudou.

 

Eu, Professor Negreiros, ao dizer "não sou", estou do lado de Heráclito. Não há um "eu" fixo, permanente, idêntico a si mesmo. Há apenas fluxo, mudança, devir.

 

O que chamamos de "eu" é uma narrativa — uma história que contamos sobre nós mesmos. E essa narrativa é feita de crenças. Acreditamos ser algo. E, ao acreditarmos, somos — provisoriamente, precariamente, temporariamente.

 

8.2. A dissolução do sujeito

A consequência dessa metafísica do devir é a dissolução do sujeito. Não há um "eu" essencial. Há apenas processos, relações, crenças.

 

O que somos, então? Somos o que acreditamos. Nada mais. Nada menos.

 

E isso é assustador. Porque significa que não temos fundamento. Não temos chão. Não temos segurança. Estamos suspensos no vazio das nossas crenças.

 

Mas é também libertador. Porque significa que podemos mudar. Podemos reconstruir nossas crenças. Podemos reinventar a nós mesmos.

 

IX. A CRENÇA COMO ATO POLÍTICO — QUEM CONTROLA A CRENÇA CONTROLA O MUNDO

9.1. A política da crença

A crença não é apenas uma questão filosófica ou religiosa. É uma questão política. Quem controla a crença controla o mundo.

 

Os regimes autoritários sempre souberam disso. Eles controlam a narrativa, a história, a verdade. Eles dizem o que devemos crer. E, ao fazê-lo, moldam o que somos.

 

No Brasil de hoje, a extrema-direita controla a crença de milhões de pessoas. Ela diz em que acreditar: no "mito", na "família", na "pátria", em Deus, na "liberdade". E, ao fazê-lo, controla o voto, a ação, a vida dessas pessoas.

 

9.2. A resistência pela descrença

A resistência começa pela descrença. Pela recusa das narrativas impostas. Pela dúvida sistemática. Pela desconstrução das crenças herdadas.

 

Eu, ao dizer "não acredito", estou resistindo. Estou me recusando a ser moldado pelas narrativas dominantes. Estou [re]afirmando minha autonomia — minha capacidade de escolher em que acredita/crer.

 

Essa é a política da descrença: não aceitar nada como dado, questionar tudo, construir minhas próprias crenças — sabendo que são provisórias, precárias, mas minhas.

 

X. EPÍLOGO — QUEM SOU EU?

Pergunto: "Quem [Eu] Sou?!"

E respondo: "Não sou!!"

Não sou essência. Não sou substância. Não sou imagem de Deus. Não sou humano em essência. Não sou racional em sentido etimológico.

Sou o que acredito. Sou o que creio. Sou o que fui — e o que serei — na medida em que acreditei e crer.

 

Sou processo. Sou devir. Sou fluxo.

E, se não sou, então posso ser — a cada momento, a cada escolha, a cada crença. Não estou preso a uma essência. Não estou condenado a uma natureza. Estou aberto ao que vier.

 

Essa é a liberdade que conquistei e mantenho ao longo de meus já 70 anos: a liberdade de não ser — e, por isso, de poder ser o que quiser.

 

— Porque acreditar não é saber. É apostar. É arriscar. É escolher — sabendo que podemos errar. E é nessa aposta que reside nossa humanidade.

 

— Ou nossa desumanidade. Porque talvez não sejamos humanos. Talvez sejamos apenas o que acreditamos ser.

 

Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes

Em diálogo holístico e transdisciplinar consigo e... com quem queira...

∞ Pesquisador Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente e Política

∞ Pedagogo, Filósofo e Rádiojornalista [DRT nº 0772/91-MA]

∞ Pós-Graduado em Docência da Educação Superior, Gestão e Educação Ambiental, Gestão em Auditoria e Perícia Ambiental

∞ Especialista em Direito e Legislação Educacional

∞ Diretor-Presidente e Fundador da Fundação Brasil de Fomento à Educação Ambiental e Humanística

 

∞ Imperatriz/MA, São Miguel/TO – Reserva EcoFloresta Lagoa da Onça – setembro de 2026

 

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[*] “Professor não “dá aula/s”. Portanto, Professor não é quem “dá aula/s”, quem ministra aulas. Morfológica e Etimologicamente, Professor [de Professo.... Professar...] é quem Professa; Profetiza; Profere..., e Proclama Conhecimento, Saber/dor/ia!! Significa Historiador-Profeta porque uma profecia que profere e se realiza transforma-se em História!!” – Prof. Negreiros/Deuzimar Menezes Negreiros – Consultor Transdisciplinar em Educação, Meio Ambiente e Política...

∞ Muy Gracias por leernos

MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM

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