A INVERSÃO FASCISTA — QUANDO O CRIMINOSO SE APRESENTA COMO JUIZ
Sobre o espetáculo eleitoral de 2026 e a projeção sistemática do próprio
crime sobre o adversário
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Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes
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Rádiojornalista [DRT nº 0772/91-MA] Pesquisador Consultor-Analista
e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente
e Política
1. O RISO E O NOJO
Há algo de grotesco — e ao mesmo tempo de profundamente revelador — no
espetáculo que a "república federativa" oferece nestes dias de
setembro de 2026.
Candidatos cujas mãos carregam processos, inquéritos, delações e
condenações sobem ao palanque para ensinar ética. Homens cujos nomes aparecem
em relatórios policiais sobre milícia, rachadinha, narcotráfico e tentativa de
golpe pedem “liberdade”, “democracia”, "ordem" e
"moralidade". Filhos de famílias que construíram carreira política
sobre a violência prometem "acabar com a violência". E o público —
mais da metade do eleitorado — aplaude. E deve em eles votar!!
O riso seria a resposta mais imediata, se não houvesse o nojo. Porque
não estamos diante de uma comédia. Estamos diante de uma operação
psicológica de massa volúvel e levável, historicamente testada,
teoricamente explicada, e hoje perfeitamente instrumentalizada: o
agressor acusa a vítima daquilo que ele mesmo pratica: agressão!!
A pergunta que formulo é devastadora em sua simplicidade: "Essas
pessoas vão combater a si mesmas?"
A resposta, infelizmente, é conhecida. Não, não vão. Porque não se trata
de combater crime algum. Trata-se de ocupar o lugar do juiz —
para que o crime continue sendo praticado sob a autoridade de quem é o denunciado.
2. A DIMENSÃO HISTÓRICA — O FASCISMO COMO INVERSÃO SISTEMÁTICA
2.1. A lição de
Adorno
Em 1951, Theodor Adorno publicou um pequeno ensaio que se tornaria
clássico: "A Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda
Fascista". Ali, ele demonstrava que o discurso fascista opera
por projeção paranoica: o agressor atribui ao inimigo seus próprios
impulsos destrutivos, e assim legitima sua própria violência como
"defesa" e "purificação".
Não é coincidência retórica. É estrutura psíquica de massa. Massa
volúvel e levável. O fascismo não nega que haja violência no mundo — ele apenas
a desloca. A violência está sempre "no outro": no
comunista, no negro, no indígena, no nordestino, no "bandido", na
"esquerda", no "STF". O fascista é sempre o salvador,
nunca o algoz. Mas é o algoz!!
2.2. A fórmula de
Goebbels e a sua ressurreição tropical
A frase atribuída a Goebbels — "acuse-os do que você
faz" — não é uma anedota. É um manual de operações.
Hitler, em Minha Luta, já dizia que "na grande mentira há
sempre uma certa força de credibilidade" e que "a mentira deve ser
grande, pois as massas acreditarão mais facilmente numa grande mentira do que
numa pequena".
O bolsonarismo não inventou esse manual. Ele apenas
o tropicalizou. A diferença é que, no século XXI, o método
tem algoritmos, redes sociais e uma indústria midiática que o
amplificam exponencialmente.
3. A DIMENSÃO BRASILEIRA — A FAMÍLIA COMO EMPRESA CRIMINOSA DE PODER
3.1. O caso
arquetípico
É impossível analisar o fenômeno sem mencionar o arquétipo que
o inaugurou no Brasil contemporâneo: o clã político que fez da violência, da mentira,
da morte e da projeção uma estratégia de acumulação de poder.
A trajetória é pública, documentada, processada:
- A origem
miliciana da família no Rio de Janeiro, com raízes nos esquadrões
da morte da ditadura e na estruturação das milícias da Zona Oeste;
- O esquema
de rachadinha nos gabinetes familiares, investigado desde os anos
1990 e reaberto em 2018;
- A tentativa
de golpe de Estado de 2022-2023, com invasão de prédios públicos
e articulação de militares para subverter o resultado eleitoral;
- O caso
Dark Horse e as transferências bancárias do
banqueiro investigado;
- As denúncias
de violência política contra adversários, jornalistas e
servidores públicos;
- O enriquecimento
patrimonial desproporcional ao longo de décadas de vida pública.
Cada um desses pontos está sob investigação, processo ou condenação.
Nada disso é invenção. É o conteúdo real daquilo que a família acusa os
outros de ser/fazer.
E, no entanto, o discurso proferido em palanque é sempre o mesmo: "vamos
acabar com a corrupção, com o crime, com a violência, com o PCC, com o CV".
A pergunta impõe-se: o candidato vai combater a si mesmo?! Vai
combater o clã no qual nasceu?!
3.2. O fenômeno se
generalizou
O problema, porém, não é uma família. É um modelo que se
proliferou por todo o Brasil. Candidatos em todos os estados, em todos os
municípios, replicam a fórmula:
- Onde
há milícia, o candidato acusa o adversário de miliciano;
- Onde
há tráfico, o candidato acusa a esquerda de proteger traficante;
- Onde
há corrupção, o candidato acusa o outro de corrupto;
- Onde
há golpismo, o candidato acusa o STF de golpista.
Quem observa de perto reconhece o mesmo roteiro, adaptado a
cada território. É um gênero discursivo — e, como todo gênero,
produz-se industrialmente.
4. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA — POR QUE O ELEITORADO ADERE
4.1. O eleitor não
é tolo. Está capturado.
A leitura fácil é que o eleitor é "burro" ou
"enganado". Essa leitura é elitista e falsa. O que ocorre
é mais complexo e mais grave:
- Captura
de informação — o eleitor consome notícias em bolhas
algorítmicas, onde a mentira circula mais rápido que a verdade;
- Captura
emocional — o medo, o ódio e o ressentimento são
emoções mais potentes do que a razão, e são cultivados deliberadamente;
- Captura
material — uma parcela do eleitorado se
beneficia direta ou indiretamente do sistema, seja por empregos
ligados ao setor, seja por programas clientelistas, seja por identificação
com o "nós contra eles";
- Captura
simbólica — há um gozo profundo em ver o "outro" [o professor, o
intelectual, o jornalista, o ministro do STF] sendo atacado. É o prazer da vingança de
classe contra quem "se acha superior".
4.2. A ignorância
não é vazio — é preenchimento
Em meu texto sobre a inteligência cultural, já alertava: a ignorância
não é ausência de informação. É excesso de informação falsa. O
eleitor bolsonarista não é alguém sem informações — é alguém saturado de
narrativas que organizam o mundo em "nós" e "eles", e que
oferecem uma explicação simples [e falsa] para problemas complexos.
Essa saturação é produzida por um ecossistema midiático que
inclui canais de YouTube, grupos de WhatsApp, rádios/TVs evangélicas, portais
de desinformação e a própria grande mídia quando lhe convém.
5. A DIMENSÃO MIDIÁTICA — O PAPEL DA INDÚSTRIA DA NARRATIVA
5.1. Não é só o
bolsonarismo — é o ecossistema
Não se pode analisar o fenômeno sem examinar o papel do ecossistema
midiático que o sustenta. Esse ecossistema inclui:
- Canais
digitais de extrema-direita — que
transformam criminosos em "heróis perseguidos", “vitimados”;
- Portais
de desinformação — que disseminam mentiras estruturadas;
- Emissoras
de televisão — que amplificam o discurso de
"combate ao crime" sem investigar quem o profere;
- Plataformas
algorítmicas — que premiam engajamento, não
veracidade.
Historicamente, esse ecossistema tem sido complacente com projetos
de poder autoritário quando eles servem a interesses econômicos e
ideológicos. Há uma cumplicidade estrutural entre certos veículos
de comunicação e certos projetos políticos — e o resultado é uma população
permanentemente exposta a uma narrativa invertida.
5.2. A corrosão da
linguagem
A linguagem política no Brasil foi capturada. Palavras como
"liberdade", "democracia", "ética",
"família", "Deus", "pátria" — que pertencem a
todos — foram sequestradas por um discurso do bolsonaro, fascista, da direita e
extrema-direita que as esvazia de sentido e as instrumentaliza para garantir a
dominação do bolsonaro, fascista, da direita e extrema-direita.
Esse sequestro é uma operação de necrofagia linguística: as palavras
são mortas e depois devoradas, para que só reste a carcaça útil ao poder do
bolsonaro, fascista, da direita e extrema-direita.
6. A DIMENSÃO MORAL — A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Voltemos à pergunta que faço:
"Essas pessoas vão combater a si mesmas?"
A resposta é dupla:
6.1. Não, não vão —
porque não querem
Quando o candidato promete "acabar com o PCC", "destruir
o CV", "combater a milícia", "eliminar a corrupção",
ele não está falando de si mesmo. Ele está falando do inimigo
construído por ele — a esquerda, o PT, o "sistema", o STF, o
"comunismo". O seu próprio crime é transferido simbolicamente para
o outro, e o outro passa a ser o alvo da violência que ele mesmo pratica.
6.2. Não, não vão —
porque o sistema os protege
Mas há uma segunda razão: mesmo que quisessem, não poderiam.
Porque o sistema que os elege é o mesmo que os blinda. As instituições
que deveriam puni-los são sistematicamente enfraquecidas. Os processos são
anulados. As investigações são obstruídas. Os relatores são alvejados.
O golpe por dentro do STF que assistimos nos últimos dias
é a face mais visível dessa blindagem institucional. Quando um ministro da
Suprema Corte afasta o diretor da Polícia Federal para proteger investigados, e
o faz sem ouvir a Procuradoria-Geral da República, o que está em curso não é um
"erro processual" — é a captura do aparelho de Estado por um
projeto criminoso golpista.
7. O QUE FAZER — PROPOSIÇÕES EXECUTÁVEIS
7.1. Nível
individual
- Não
normalizar — chamar o crime de crime, sempre, mesmo
quando o criminoso está no poder;
- Não
esquecer — manter viva a memória dos fatos, dos
processos, das condenações;
- Não
se calar — falar em família, no trabalho, na
escola, na igreja;
- Votar
com consciência — conhecer os candidatos, exigir
transparência, não se deixar levar pela narrativa fácil.
7.2. Nível coletivo
- Fortalecer
a imprensa independente — apoiar
veículos que investigam o poder, não que o servem;
- Ocupar
os conselhos e espaços de participação —
controle social é arma;
- Construir
redes de resistência — movimentos sociais,
sindicatos, universidades, comunidades de base;
- Denunciar
a projeção — quando alguém acusa outro daquilo que
ele mesmo faz, expor a inversão.
7.3. Nível
institucional
- Defender
a independência do STF — mas cobrar de seus
ministros a imparcialidade que deles se espera;
- Exigir
a aplicação efetiva da lei — Ficha
Limpa, inelegibilidade por vínculo com organizações criminosas, punição da
violência política;
- Reformar
o sistema político — financiamento público
exclusivo, fim do financiamento empresarial, transparência total;
- Fortalecer
a educação pública — porque a única forma de
romper o ciclo da desinformação é formar cidadãos capazes de pensar
criticamente.
8. CONSIDERANDOS FINAIS — O QUE ESTÁ EM JOGO
Não estamos diante de uma disputa eleitoral comum. Estamos diante de
uma guerra de narrativas — e, por trás dela, de uma guerra
pelo próprio significado do Estado de Direito no Brasil.
De um lado, um projeto que quer transformar a democracia em fachada, o
crime em método de governo, e o povo em massa de manobra. Do outro, a
resistência — fragmentada, cansada, mas ainda viva — de quem acredita que a lei
existe para todos, que a verdade importa, e que a história não está escrita.
A pergunta que faço não é retórica. É convocação:
"Essas pessoas vão combater a si mesmas?"
Não. Elas jamais vão combater a si mesmas. Cabe a nós —
cidadãos, professores, intelectuais, trabalhadores — combatê-las. E
combatê-las significa:
- Dizer
a verdade quando a mentira é mais confortável;
- Nomear
o crime quando o criminoso se apresenta como
juiz;
- Ocupar
as ruas, as redes, as urnas, as escolas, os conselhos —
porque o poder não se entrega, se conquista;
- Resistir —
mesmo quando a maioria parece ter escolhido o lado errado da história.
Porque a história, ao contrário do que dizem, não termina no dia
da eleição. Ela continua, todos os dias, na luta de quem não se conforma.
— Porque a minha pátria é o Brasil, e a minha pátria será livre ou será
escrava. Mas eu escolho livre.
Pesquisas, leituras, análises, seleção, elaboração, adaptação,
produção e organização dos parágrafos/textos:
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Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes
∞
Pesquisador Consultor-Analista
e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente
e Política
∞ Pedagogo, Filósofo e
Rádiojornalista [DRT nº 0772/91-MA]
∞ Pós-Graduado em Docência da
Educação Superior, Gestão e Educação Ambiental, Gestão em Auditoria e Perícia
Ambiental
∞ Especialista em Direito e
Legislação Educacional
Contatos:
prof.negreiros@gmail.com
fundacaobrasileducacional@gmail.com
institutouniversidadepanameria@gmail.com
http://professornegreiros.blogspot.com.br/
Imperatriz/MA, São Miguel/TO, 11 de setembro 2026
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[*] “Professor não “dá aula/s”. Portanto, Professor
não é quem “dá aula/s”, quem ministra aulas. Morfológica e Etimologicamente,
Professor [de Professo.... Professar...] é quem Professa; Profetiza;
Profere..., e Proclama Conhecimento, Saber/dor/ia!! Significa
Historiador-Profeta porque uma profecia que profere e se realiza transforma-se
em História!!” – Prof. Negreiros/Deuzimar Menezes Negreiros – Consultor
Transdisciplinar em Educação, Meio Ambiente e Política...