AS RAÍZES MENTAIS DO PRESENTEÍSMO POLÍTICO BRASILEIRO
Por que o povo brasileiro vota na direita e na
extrema-direita?
Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes — Num diálogo e comunhão holística
transdisciplinar
1. A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Há uma pergunta que atravessa a história do Brasil e que, no entanto,
raramente é formulada com a seriedade que merece: por que o povo
brasileiro, majoritariamente pobre, trabalhador e explorado, vota em políticos
que representam os interesses dos ricos, dos exploradores, dos que sempre
estiveram do outro lado?
A resposta não está apenas na política. Está na antropologia, na sociologia,
na psicologia, na história, na religião e na cultura.
Está na forma como o brasileiro mentalmente vive o tempo, na forma mental
como se relaciona com o poder, na forma como aprende [ou
não aprende] a pensar criticamente.
Este ensaio busca compreender essa complexidade. Não para justificar o
voto na extrema-direita — mas para entender suas raízes, e, a
partir daí, transformar a realidade.
2. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA: O TEMPO PRESENTE E
A ANSIEDADE DO AGORA
2.1. O tempo psicológico e o tempo cronológico
Identifico desde os anos 80 do século passado um fenômeno
fundamental: o povo brasileiro vive no tempo psicológico presente.
Ele ignora o passado — não quer lembrar das ditaduras, das escravidões, das opressões.
Da vida que viveu. E ignora o futuro — não planeja, não projeta, não sonha com
o longo prazo.
O tempo psicológico é o tempo vivido, o tempo sentido.
É diferente do tempo cronológico, que é o tempo medido pelo relógio,
o tempo que passa independentemente da nossa vontade.
O brasileiro não sabe que vive o tempo cronológico.
Ele não percebe que o passado está sempre presente — nas
estruturas, nas desigualdades, nas mentalidades. Ele não vê que
o futuro está sendo construído agora, a cada escolha, a cada voto.
2.2. A ansiedade do presente
Essa vivência mental no presente gera uma ansiedade profunda.
O brasileiro busca satisfazer seus interesses imediatamente —
mas a satisfação nunca chega. Porque as causas da insatisfação são estruturais,
não conjunturais.
Ele busca realizar sua satisfação aqui e agora:
- Na religião — que
promete o paraíso, mas não resolve a fome;
- Na economia — que
promete prosperidade, mas concentra riqueza;
- No político — que
promete salvação, mas serve ao capital onde concentra riqueza.
E o político que melhor explora essa ansiedade é o político de
direita e de extrema-direita. Ele promete o aqui e agora:
"Vou resolver seu problema hoje. Vou te dar “na palma da mão” o que você
precisa agora." Ele não tem pudor em prometer o que nunca
cumprirá. Porque sabe que o eleitor não cobrará — porque não
lembra do que foi prometido, porque não planeja o
futuro.
2.3. O messianismo político
O brasileiro busca um salvador. Alguém que resolva seus
problemas sem que ele precise fazer nada. Alguém que faça por ele o
que ele não sabe ou não pode fazer por si mesmo.
Esse messianismo é infantilizante. Ele retira do cidadão a responsabilidade sobre
seu próprio destino. Ele transfere ao líder a tarefa de
transformar a realidade. E o líder, claro, nunca cumpre a
promessa — porque não pode, ou porque não quer.
O resultado: gerações inteiras esperando por um
salvador que nunca chega. Enquanto isso, a vida passa, as
oportunidades se perdem, a desigualdade se aprofunda. Se consolida. Eterniza.
3. A DIMENSÃO SOCIOLÓGICA: O CORONELISMO E O
PATRIARCALISMO
3.1. O coronelismo
O coronelismo foi um sistema político que dominou o Brasil da República
Velha [1889-1930]. Nele, o coronel — o grande proprietário de
terras — controlava a vida política de sua região. Ele escolhia o
candidato que o povo deveria votar. Ele mandava no voto do
eleitor.
O coronelismo acabou formalmente. Mas suas estruturas permanecem.
O "coronel" foi substituído pelo "rico" —
o empresário, o fazendeiro, o dono da mídia, o líder religioso. Ele não manda
mais no voto pela força como fazia o coronel. Ele manda pela
influência, pela persuasão, pelo condicionamento.
O "rico" financia o candidato. O "rico" controla
a mídia. O "rico" pauta o debate. O "rico" define
quem é "confiável" e quem é "inimigo do povo". E o
povo, sem consciência crítica, acredita que está
escolhendo livremente — quando, na verdade, está apenas ratificando a
escolha do "rico".
3.2. O patriarcalismo
O Brasil foi construído sobre uma estrutura patriarcal. O pai mandava
na família. O senhor mandava nos escravos. O coronel mandava no
povo. O presidente mandava na nação. Tudo uma questão cultural
de mandar, e quem podia mandar, mandava.
Essa estrutura hierárquica e autoritária moldou a
mentalidade brasileira. O povo aprendeu a obedecer. Aprendeu a respeitar a
autoridade — mesmo quando ela é arbitrária, violenta, injusta.
O bolsonarismo reproduz essa estrutura. O líder é o pai —
o "mito", o "salvador", o "capitão". Ele manda.
Os filhos são os herdeiros — os príncipes que darão
continuidade à dinastia. O povo é a família — que deve obedecer, agradecer, servir
mansamente como gado.
3.3. A cultura da obediência
O brasileiro foi educado para obedecer. A escola ensina a
obedecer. A igreja ensina a obedecer. A família ensina a obedecer. A mídia ensina
a obedecer.
Quem obedece é bonzinho. Quem questiona é
rebelde-comunista. Quem pensa é perigoso. Quem critica é inimigo.
É esquerdista.
Essa cultura da obediência é o caldo de cultura do autoritarismo.
Ela prepara o terreno para o messias que manda, para o líder que ordena,
para o ditador que impõe.
4. A DIMENSÃO ANTROPOLÓGICA: A RELIGIÃO COMO
ANESTÉSICO
4.1. A religiosidade brasileira
O Brasil é um país profundamente religioso. Segundo o Censo
de 2022, 89,2% da população se declara religiosa. Desses, 83,4%
são cristãos — 64,4% católicos e 22,2% evangélicos.
A religiosidade não é um problema em si. O problema é quando a
religião é instrumentalizada para fins políticos e econômicos.
4.2. A Teologia da Prosperidade
A Teologia da Prosperidade — que domina as igrejas
neopentecostais — ensina que:
- Deus quer que
os fiéis sejam ricos;
- A pobreza é
sinal de falta de fé;
- O dízimo
é investimento — e quem não paga rouba de Deus;
- A bênção
material é prova da eleição divina.
Essa teologia anestesia o fiel. Ele não
questiona a desigualdade — porque acredita que a riqueza é bênção de
Deus. Ele não luta por justiça social — porque acredita que a
pobreza é falta de fé. Ele não se organiza politicamente —
porque acredita que a transformação vem de Deus, não dos homens. Isso é FATO!!
4.3. A Teologia do Domínio
A Teologia do Domínio, escatológica — que cresce no Brasil —
ensina que os cristãos têm o mandato divino de dominar todas as esferas
da sociedade. O governo civil existe para implementar as leis de Deus.
Se o governo não o faz, os cristãos devem tomá-lo para
fazê-lo.
Essa teologia sacraliza o poder político de direita,
extrema-direita, fascista. O líder não é apenas um presidente — é um ungido.
Quem o critica não critica um político — critica a Deus. Quem o
combate não combate um governo — combate a fé.
4.4. A fusão com o bolsonarismo
A fusão entre a religião e o bolsonarismo é estratégica:
- A igreja
fornece base de massa obediente: volúvel e levável;
- O bolsonarismo
fornece poder estatal;
- A igreja
fornece legitimidade divina: a escatologia;
- O bolsonarismo
fornece proteção jurídica.
O resultado: milhões de fiéis que votam em criminosos
porque foram convencidos de que são enviados de Deus. Homens de
Deus.
5. A DIMENSÃO POLÍTICA: A FÁBRICA DE ALIENAÇÃO
5.1. A educação que não educa
A escola brasileira não ensina a pensar. Ela ensina a obedecer.
Ela ensina a decorar. Ela ensina a passar em uma prova, no
vestibular. Ela não ensina a questionar,
a duvidar, a criticar.
O resultado: uma população sem consciência crítica, dialética, sem
capacidade de análise, sem ferramentas para ler e compreender o mundo.
5.2. A mídia que manipula
A grande mídia — especialmente a Rede Globo — manipula,
distorce a informação. Ela esconde o que contraria seus
interesses e de que ela representa patrimonial e financeiramente. Ela amplifica
o que os favorecem. Ela constrói narrativas que condicionam a
percepção da realidade.
O resultado: uma população desinformada, manipulada, alienada,
condicionada a votar em quem a mídia diz que é
"confiável".
5.3. A política que engana
Os políticos de direita, extrema-direita e fascista exploram a ansiedade
do presente. Prometem em nome de Deus soluções mágicas. Oferecem salvação
imediata. E o povo, desesperado pelo o aqui e agora, acredita.
O resultado: gerações inteiras votando em quem nunca cumpre
o que promete — mas que sempre aparece com uma nova promessa na
próxima eleição.
6. A DIMENSÃO HISTÓRICA: A HERANÇA DO
COLONIALISMO
6.1. A colonização como matriz
O Brasil foi colonizado [e se mantém] sob a lógica da exploração,
da extração, da subordinação. O colonizador mandava.
O colonizado obedecia. O colonizador explorava. O colonizado produzia
para o colonizador.
Essa lógica nunca foi superada. Ela apenas mudou de
forma. O colonizador externo foi substituído pelo colonizador interno —
o latifundiário, o empresário, o político corrupto. E o colonizado continua
a obedecer, a produzir para o colonizador, a acreditar que
o colonizador é seu salvador.
6.2. A escravidão como ferida aberta
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão —
em 1888. Mas a mentalidade escravocrata permanece. O senhor manda.
O escravo obedece. O senhor explora. O escravo produz.
O bolsonarismo reproduz essa mentalidade. O líder é o senhor.
O povo é o escravo. O senhor promete proteção. O
escravo agradece. O senhor explora. O escravo não
percebe.
7. POR FIM: A POSSIBILIDADE [REMOTA] DA
TRANSFORMAÇÃO
O quadro que se desenha é sombrio. Mas não é definitivo.
A história não acabou. O futuro ainda está em disputa.
A transformação exige:
1.
Educação crítica — que ensine a pensar, a duvidar, a questionar;
2.
Comunicação popular — que dispute o imaginário da população;
3.
Organização popular — que construa poder de baixo para cima;
4.
Consciência histórica — que faça o povo lembrar do passado para transformar o
futuro;
5.
Esperança militante — que não se renda ao pessimismo, mas aja para
mudar a realidade.
O povo brasileiro não é ignorante por natureza. É ignorante por
condição. E a condição pode ser transformada.
— Porque a alienação não é o fim. É o começo da luta. E quem desperta
não volta a dormir no fundo da caverna, da caixa.
Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA
Em diálogo e comunhão holística transdisciplinar...
Imperatriz [MA], 9 a 18 de outubro de 2026
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