AS MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM E A PROIBIÇÃO COMO ACERTO HISTÓRICO
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Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes –
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – Pesquisador
Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares
em Educação, Meio Ambiente e Política
I.
À GUISA DE ANTELÓQUIO: O RASTRO DE SANGUE QUE A MÍDIA NÃO MOSTROU
Início
fazendo uma pergunta direta e brutal: quantas mortes, quantos assassinatos já
ocorreram em família por causa dos vícios nos jogos nas bets? E mais: é um
acerto social o governo Lula ter proibido as bets?
A resposta
exige coragem para encarar o que a grande mídia, financiada pelos anunciantes
das bets, preferiu esconder. Exige também rigor para separar o que é dado
empírico do que é retórica política.
Não há um
número oficial consolidado de mortes diretamente atribuídas às bets no Brasil —
porque o Estado nunca tratou o problema como questão de saúde pública, e a
Justiça arquivou processos por falta de provas. Mas os rastros
existem. E são profundos.
II.
O QUE OS DADOS REVELAM
2.1. Os
custos sociais mensurados
Um estudo do Instituto de
Estudos para Políticas de Saúde [IEPS] estimou que os
danos associados a apostas e jogos de azar no Brasil geram um custo social
anual de R$ 38,8 bilhões. Desse total:
a.
R$ 17 bilhões por
mortes adicionais por suicídio;
b.
R$ 10,4 bilhões por
perda de qualidade de vida com depressão;
c.
R$ 3 bilhões em
tratamentos médicos para depressão;
d.
R$ 1,3 bilhão por
perda de moradia;
e.
R$ 2,1 bilhões em
benefícios de seguro-desemprego;
f.
R$ 4,7 bilhões por
encarceramento decorrente de atividade criminal.
O dado é estarrecedor: R$ 17 bilhões —
quase metade do custo social total — estão associados a suicídios ligados
ao vício em apostas.
2.2. A
subnotificação e o silêncio institucional
Esses
números, porém, são estimativas.
A realidade pode ser pior.
Em julho de
2026, a influenciadora e servidora do IML de Anápolis [GO], Sharen Machado,
relatou publicamente que, em apenas três plantões recentes,
presenciou seis casos de autoextermínio com
relatos de familiares ligando as mortes a dívidas de apostas.
“Atinge todos
os públicos: de gente rica a gente pobre, de pessoas com empregos dos sonhos a
baixa renda, de jovens a pessoas mais idosas... deixando carta, falando que não
aguentava mais e tirando a própria vida”, detalhou a servidora.
A professora Vânia,
de Uberlândia [MG], perdeu o filho Rafael Borges Amaral,
de 26 anos, para o suicídio após meses de endividamento e isolamento causados
pelo vício em bets. Ela tentou responsabilizar os influenciadores que
bombardearam o filho com publicidade, mas a Polícia Civil e o Ministério
Público arquivaram o caso por falta de provas.
“A polícia me
recebeu com bastante indiferença. Por ser um auto-extermínio, pressupõe-se que
não há uma pessoa que tenha diretamente contribuído para a morte”, desabafou
Vânia.
2.3. A
violência intrafamiliar
A violência
doméstica associada às apostas é
outro dado que emerge dos estudos. Segundo dados compilados no dossiê “Brasil
Sem Azar”, 45% dos casos de dívidas com apostas relatam impacto direto na família,
com escalada de conflitos financeiros, tensão psicológica, negligência familiar
e rupturas.
O caso mais
brutal documentado ocorreu em Vespasiano [MG],
em julho de 2025. Matteos França Campos,
de 32 anos, estrangulou a própria mãe,
a professora de História Soraya Tatiana Bomfim França,
de 56 anos, após uma discussão sobre dívidas com apostas online. Ele ocultou o
corpo sob um viaduto, simulou o desaparecimento da mãe e tentou despistar os
investigadores.
A delegada
responsável foi categórica: “Ele participava de jogos de apostas na internet, o
que o levou a ter um colapso financeiro. Esse problema foi motivo de várias
discussões entre eles”.
Este é um
assassinato em família diretamente ligado a bets.
III.
A PROIBIÇÃO: ACERTO OU OPORTUNISMO ELEITORAL?
3.1. O que a
proibição representa
Em 25 de
setembro de 2026, o governo Lula publicou a Medida
Provisória 1.394/2026, proibindo a exploração, oferta,
intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil.
A medida revogou a regulamentação anterior [Lei 14.790/2023] e determinou que
as plataformas saiam do ar a partir de 6 de outubro.
A decisão
veio nove dias antes das eleições de 4 de outubro,
o que gerou acusações de oportunismo eleitoral.
3.2. O
contexto histórico: quem criou o problema
Para avaliar
se a proibição é um acerto, é preciso entender a trajetória:
1.
2018 – Governo Temer: As apostas
de quota fixa foram legalizadas pela
Lei 13.756/2018, no apagar das luzes do governo Michel Temer. A lei previa
regulamentação em até quatro anos.
2.
2019-2022 – Governo Bolsonaro: A
regulamentação não foi feita. As bets operaram sem regras por
pelo menos cinco anos, devastando famílias e drenando bilhões da economia
popular.
3.
2023 – Governo Lula: O governo
enviou ao Congresso a regulamentação. Lula sancionou a Lei
14.790/2023, que criou regras de
licenciamento, tributação e proteção ao consumidor.
4.
2024 – Regulamentação em vigor: A partir de
1º de janeiro de 2025, as bets autorizadas passaram a operar sob regras —
proibição de cartão de crédito, vedação de bônus, restrições à publicidade,
mecanismos de autoexclusão.
5.
2026 – A proibição: Diante da
constatação de que a regulação não funcionou —
os danos sociais continuaram, as perdas das famílias atingiram R$ 62,5 bilhões,
e as suspeitas de lavagem de dinheiro se multiplicaram — o governo optou pela proibição
total.
3.3. O acerto
social
Sim, a
proibição é um acerto social.
Os argumentos
são sólidos:
1.
A regulação falhou em proteger os
vulneráveis. A lei determinava que empresas bloqueassem usuários
compulsivos, mas “isso nunca ocorreu”, segundo o advogado Júlio Leone.
2.
O modelo de negócio é predatório
por natureza. As bets não são entretenimento; são máquinas de
extração de renda da população pobre. Dados
do Banco Central mostram que 5 milhões de beneficiários do
Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para
bets em agosto de 2024.
3. As perdas das famílias são insustentáveis. Só no último ano, as famílias brasileiras perderam R
4.
O custo em vidas humanas é
inaceitável. R$ 17 bilhões em suicídios. Seis autoextermínios em três
plantões. Uma mãe estrangulada pelo filho. Uma professora que perdeu o filho e
não conseguiu justiça. Esses números e histórias não são
abstratos — são o preço que a
sociedade pagou pela omissão do Estado.
3.4. O que a
proibição não resolve
A proibição é
um avanço, mas não é suficiente. É preciso:
a.
Tratamento para os viciados: O SUS precisa
de uma rede de acolhimento para ludopatas. Já há esforços nesse sentido, mas
são insuficientes.
b.
Responsabilização dos
influenciadores: A professora Vânia quer ver os influenciadores na Justiça. Ela
os chama de “traficantes modernos”. A CPI das Bets rejeitou o
relatório final que pedia o indiciamento de
16 responsáveis por empresas de apostas e influenciadores.
c.
Combate ao mercado ilegal: A proibição
atinge as bets autorizadas, mas o mercado clandestino pode prosperar. A
fiscalização é essencial.
d.
Educação financeira e prevenção: É preciso
ensinar as crianças e jovens que apostar não é investimento — é ilusão.
IV.
CONCLUSÃO: UM ACERTO COM GOSTO DE URGÊNCIA
O governo
Lula acertou ao proibir as bets. Mas
acertou tarde — tarde demais para Soraya,
tarde demais para Rafael, tarde demais para os seis suicidas de Anápolis, tarde
demais para as milhares de famílias destruídas.
A proibição
foi anunciada a nove dias das eleições, o que levanta a suspeita de
oportunismo. Mas a suspeita não invalida o acerto. Se o governo tivesse
proibido as bets em 2023, quando sancionou a regulação — ou em 2024, quando
Lula disse “se a regulação não der conta, eu acabo com elas” — o rastro de
mortes seria menor.
O problema
não é a intenção. É o tempo.
A pergunta
que fica é: por que o Brasil esperou tanto? Por
que a CPI das Bets foi arquivada? Por que a Polícia Civil tratou o caso de
Rafael com “indiferença”? Por que a grande mídia, que lucrou com a publicidade
das bets, só agora noticia o problema?
A resposta
está na mesma lógica que eu denuncio em meus escritos: o capitalismo
transforma a vida em mercadoria e a morte em estatística.
As bets eram [e são] um negócio lucrativo. Os influenciadores ganhavam
comissão. As plataformas de mídia faturavam com anúncios. O Congresso estava
capturado.
A proibição
das bets é um acerto. Mas é um acerto arrancado à força — pela
pressão da sociedade civil, pelas mães que perderam filhos, pelos profissionais
de saúde que viram o colapso nos CAPS, pelos servidores do IML que contam os
corpos.
Não é uma
vitória do governo. É uma vitória da resistência.
— Porque a
vida não é um jogo. E a morte não é uma aposta.
Professor[*]
Negreiros, Deuzimar Menezes
Em
diálogo holístico e transdisciplinar com a sociedade vítimizada pelas
bets e políticos...
Imperatriz [MA],
29 de setembro de 2026