sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 QUANDO A POLÍTICA E A RELIGIÃO INVADEM O TRIBUNAL:

A MORTE DO DIREITO E DA JUSTIÇA NO STF BRASILEIRO

Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes

 

 

1. A PORTA E A JANELA

Há uma imagem que sintetiza a tragédia institucional brasileira contemporânea. Quando a política entra pela porta de um tribunal, o direito e a justiça saem pela janela. É uma fuga silenciosa, quase imperceptível — mas é uma fuga. O tribunal continua funcionando, as audiências continuam acontecendo, as decisões continuam sendo proferidas. Mas algo essencial se perdeu: a integridade da jurisdição.

 

Quando, porém, a religião e a política se unem/misturam e entram juntas pela porta de um tribunal, o direito e a justiça não têm tempo de sair pela janela. Eles são assassinados dentro do próprio tribunal. O crime acontece à luz do dia, diante das câmeras, nos autos do processo. E o assassino veste toga.

 

É o que agora ocorre no Supremo Tribunal Federal brasileiro.

 

O necropoliticobolsonaro — essa simbiose entre a política de morte, o bolsonarismo e a necropolítica que caracteriza o projeto de poder da extrema-direita — empurrou para dentro do STF seu vírus político-religioso extremista fascinazista. E o vírus encontrou um hospedeiro: o ministro André Mendonça, o "terrivelmente evangélico", o homem que Jair Bolsonaro indicou para a Corte com a missão de subvertê-la por dentro.

 

Este ensaio analisa como a doutrina religiosa-política e a política-religiosa criaram o fanatismo que hoje ameaça destruir a democracia brasileira a partir de seu órgão mais alto de justiça.

 

2. A FUSÃO ENTRE POLÍTICA E RELIGIÃO: A GÊNESE DO FANATISMO

2.1. A doutrina religiosa-política como arma de dominação

A fusão entre religião e política não é um fenômeno novo. Ela atravessa a história da humanidade — das teocracias antigas ao cesaropapismo medieval, do islamismo político ao fundamentalismo protestante americano. Mas no Brasil contemporâneo, essa fusão adquiriu uma forma específica e particularmente perigosa: o evangélico bolsonarismo e vice-versa: o bolsonarismo evangélico.

 

O bolsonarismo não é apenas um movimento político. É uma religião civil — com dogmas, mártires, rituais e uma escatologia própria. Seu dogma central é a "luta contra o esquerdismo/comunismo"; seus mártires são os "patriotas" perseguidos; seus rituais são as manifestações de 7 de setembro; sua escatologia é a "volta do mito" que restaurará a ordem.

 

A doutrina religiosa-política que sustenta esse movimento opera em três níveis:

1.       Nível teológico: A crença de que Bolsonaro foi "enviado por Deus" para salvar o Brasil do comunismo. André Mendonça, em depoimento, afirmou ver Bolsonaro como um "profeta" — uma crença que, no exercício do cargo, se traduz em lawfare contra os inimigos do "profeta".

2.       Nível político: A transformação da fé em identidade política. Pesquisas mostram que 59% dos evangélicos defendem que Bolsonaro tenha o direito de concorrer em 2026. A fé se tornou um marcador partidário.

3.       Nível institucional: A ocupação de espaços de poder — especialmente o STF — por agentes comprometidos com essa cosmovisão. André Mendonça é o exemplo máximo: um ministro que age como cavalo de Troia do bolsonarismo na Corte.

 

2.2. O fanatismo como produto da fusão

Quando a religião e a política se fundem, o resultado é o fanatismo. Não o fanatismo religioso tradicional — que busca converter o outro —, mas o fanatismo político-religioso — que busca aniquilar o outro.

 

O fanático religioso/político-religioso não dialoga. Ele combate. Ele não reconhece a legitimidade do adversário. Ele o vê como encarnação do mal, como agente do demônio, como inimigo de Deus. E, se o inimigo é de Deus, matá-lo não é crime — é dever sagrado.

 

Essa lógica está na raiz da violência bolsonarista: os ataques de 8 de janeiro, as ameaças a ministros do STF, os planos de golpe, as milícias digitais. Tudo isso é guerra santa — uma cruzada contra os "esquerdistas/comunistas", os "corruptos", os "inimigos do povo".

 

3. A ENTRADA DO VÍRUS NO STF: ANDRÉ MENDONÇA COMO AGENTE DO CAOS

3.1. A indicação como ato de guerra

Quando Jair Bolsonaro indicou André Mendonça ao STF, em 2021, não foi um gesto de estadista. Foi um ato de guerra. Bolsonaro não queria um jurista imparcial; queria um soldado — alguém que, dentro da Corte, atuasse para protegê-lo, para blindar seus aliados, para perseguir seus inimigos.

 

Mendonça cumpriu a missão. Seu histórico na Corte é uma sucessão de atos que beneficiam o bolsonarismo e prejudicam seus adversários:

  1. Mantém sob sigilo o inquérito do caso Dark Horse, que envolve Flávio Bolsonaro;
  2. Quebrou o sigilo contra Alexandre de Moraes em 24 horas, para gerar um fato político às vésperas das eleições;
  3. Afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, sem ouvir a PGR, em causa própria — pois os relatórios da PF o mencionavam;
  4. Tenta, preventivamente, evitar que Alexandre de Moraes assuma a presidência do STF em 2027.

 

3.2. A decisão de 8 de setembro de 2026: o golpe dentro do STF

No dia 8 de setembro de 2026, André Mendonça deu o passo mais ousado de sua carreira golpista: decapitou o comando da Polícia Federal.

Afastou o diretor-geral Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência Leandro Almada, sob a alegação de que relatórios de inteligência o haviam "monitorado" de forma ilegal. Não ouviu a Procuradoria-Geral da República. Não consultou o Pleno do STF. Agiu sozinho, em causa própria-bolsonarista, em um caso que o envolvia diretamente.

 

Foi um ato de desobediência civil — no sentido mais grave do termo. Um ministro do STF, que jurou defender a Constituição, violou a Constituição para proteger os investigados do bolsonarismo e alvejar o principal algoz da extrema-direita no Judiciário: Alexandre de Moraes.

 

O ministro Flávio Dino, em decisão posterior, afirmou que Mendonça agiu "em causa própria" e que a interrupção das investigações beneficia "sobretudo os investigados". A AGU pediu a revogação da decisão. A Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento de Andrei, mas Gilmar Mendes pediu vista e suspendeu o julgamento.

 

O direito e a justiça foram assassinados dentro do tribunal.

 

4. AS CONSEQUÊNCIAS: O STF COMO ARENA POLÍTICA

4.1. A perda da imparcialidade

O primeiro e mais grave efeito da entrada do vírus político-religioso no STF é a perda da imparcialidade. Um tribunal que deveria ser o guardião da Constituição se transformou em arena de disputa política.

 

Mendonça não decide com base no direito. Decide com base na conveniência política — sua e de seus aliados. Suas decisões não visam à justiça; visam ao poder. Não protegem a democracia; protegem o projeto de poder do bolsonarismo.

 

4.2. A instrumentalização do direito

O direito, que deveria ser um instrumento de limitação do poder, tornou-se um instrumento de exercício do poder. A lei não é mais um freio; é uma arma. As decisões não são mais atos de jurisdição; são atos de guerra.

 

Essa instrumentalização é característica dos regimes autoritários. Nos regimes democráticos, o direito limita o poder. Nos regimes autoritários, o direito serve ao poder. É o que vemos no STF de Mendonça.

 

4.3. A destruição da confiança institucional

A consequência mais duradoura é a destruição da confiança nas instituições. Quando o povo percebe que o STF não é imparcial, que os ministros decidem com base em interesses políticos, que a justiça é seletiva, a legitimidade do tribunal se desintegra.

 

E sem legitimidade, o direito é apenas força. Sem confiança, a justiça é apenas vingança. Sem credibilidade, o STF é apenas mais um ator político na arena — não o árbitro imparcial que a Constituição quis que fosse.

 

5. A REDE GLOBO E A AMPLIFICAÇÃO DO CAOS

A entrada do vírus político-religioso no STF não ocorreria sem a cumplicidade da grande mídia. A Rede Globo, em particular, tem desempenhado um papel central na amplificação do caos e na legitimação do golpismo.

 

Desde sua fundação, a Globo foi filiada aos interesses dos EUA no Brasil. Fomentou e garantiu o golpe de 1964, apoiou a ditadura militar, defendeu o impeachment de Dilma Rousseff, engajou-se na Lava Jato, facilitou a eleição de Bolsonaro. Agora, permanece ao lado do golpe — porque tem muito a ganhar com sua concretização.

 

A cobertura da crise entre Mendonça e Moraes, com vazamentos calculados e manchetes sensacionalistas, segue o mesmo roteiro da Lava Jato: criminalizar o inimigo político, espetacularizar a acusação, criar uma narrativa que sirva a interesses eleitorais. A Globo, como sempre, está do lado de quem pode lhe dar mais audiência e mais poder — e esse lado, hoje, é o bolsonarismo.

 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A NECESSIDADE DE EXPURGAR O VÍRUS

O que está em jogo, neste momento, é a própria sobrevivência da democracia brasileira.

André Mendonça não é um juiz. É um operador político dentro do STF, um agente do golpismo continuado que, à revelia da lei, alveja de morte a instituição que deveria proteger. Cada ação sua é um passo em direção à ditadura monárquico-miliciana que o bolsonarismo sonha em implantar no Brasil.

 

Mas há uma contradição que pode ser sua ruína: ao agir com tanta desfaçatez, Mendonça cavou sua própria cova. A decisão de afastar Andrei sem ouvir a PGR é anulada. A pressão da opinião pública, se bem orientada, pode reverter votos contrários. E o próprio Moraes, embora alvejado, ainda tem maioria no tribunal.

 

A pergunta que fica é: o STF terá coragem de expurgar o vírus que o corrói por dentro?

 

O enfrentamento ao necropoliticobolsonaro e seus agentes exige:

  1. Denúncia constante — expor a seletividade e a hipocrisia de Mendonça e seus aliados;
  2. Mobilização popular — ocupar as ruas e as redes para defender o STF e a democracia;
  3. Voto consciente — derrotar nas urnas os candidatos que se beneficiam da destruição institucional;
  4. Resistência jurídica — usar todos os instrumentos legais para anular os atos golpistas de Mendonça.

 

O Brasil não pode se acostumar com o golpe. Não pode normalizar a obscenidade jurídica. Não pode aceitar que um ministro do STF atue como articulador de campanha dentro da Corte.

 

O vírus precisa ser expurgado. Antes que ele mate o hospedeiro.

 

— Quando a política entra pela porta de um tribunal, o direito e a justiça saem pela janela. Quando a religião e a política entram juntas, o direito e a justiça são assassinados dentro do tribunal. E o assassino veste toga.

 

Professor Negreiros, Deuzimar Menezes

Imperatriz (MA), grafado entre os dias 06 a 25 de setembro de 2026

 

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