NÃO HÁ MAIS TRABALHADORES: A METAFÍSICA DO EMPREENDEDORISMO E A ESCRAVIDÃO VOLUNTÁRIA
Por Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes – Rádiojornalista [DRT nº 0772/91-MA] –
Pesquisador, Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras
Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente e Política, em um diálogo
holístico e transdisciplinar
“...pobre é quem recebe bolsa família”.
E não mais há trabalhadores para que a eles se possa dirigir como
tal.
I. O EPISÓDIO: A FALA QUE REVELA UM MUNDO
Hoje, 09 de outubro de 2026, antes das 8h, indo de bicicleta para uma
reunião do FME/Forum Municipal de Educação de Imperatriz, parei no semáforo, na
Simplício Moreira com Santa Tereza, canto da praça que há entre a UPA, na
Bernardo Sayão, e o Colégio Graça Aranha.
Aí ouvi um pobre diabo — moreno, de estatura franzina, uns 25 anos, também
em uma bicicleta, às costas uma espécie de "caixa" de entregador
rápido de comida — em conversa com outro. No contexto da conversa, ele disse:
– "Não sou pobre, sou empreendedor. Pobre é quem recebe Bolsa
Família."
Pois é.
Essa frase, aparentemente banal, é uma janela para a alma de um
Brasil que se perdeu de si mesmo. Em uma única sentença, o jovem entregador
de aplicativo:
- Rejeita sua
própria condição de classe ("não sou pobre");
- Adota a
identidade que o capital lhe oferece ("sou
empreendedor");
- Ataca o mais
vulnerável que ele ("pobre é quem recebe Bolsa Família");
- Reproduz a
ideologia que o explora (o empreendedorismo como valor supremo).
Ele não sabe — ou não quer saber [nega-se a saber] — que é exatamente o
que o capitalismo quer que ele seja: um trabalhador que não se reconhece como
trabalhador; um explorado que se vê como patrão; um pobre que odeia os
pobres.
II. A METAFÍSICA DO "EMPREENDEDOR":
A ILUSÃO QUE ESCRAVIZA
2.1. O que significa "ser empreendedor"?
Na metafísica da fala — a camada subliminar da linguagem que revela o
que as palavras escondem —, dizer "sou empreendedor" significa:
- "Não sou
trabalhador" — porque trabalhador é aquele que vende
sua força de trabalho, que tem patrão, que tem carteira assinada, que tem
direitos trabalhistas e sociais;
- "Não sou
pobre" — porque pobre, na ideologia dominante,
é aquele que "depende do governo", que "recebe Bolsa
Família", que "não se esforça";
- "Sou
empresário de mim mesmo" — porque, na lógica neoliberal, cada um
é uma "empresa" que deve "gerir sua carreira",
"investir em si mesmo", "buscar oportunidades";
- "Vou
enriquecer" — porque o empreendedorismo é
apresentado como o caminho para a riqueza, o atalho para o sucesso, a
promessa de que "qualquer um pode chegar lá".
Mas nada disso é verdade.
O entregador de aplicativo não é empreendedor. É um trabalhador
precarizado — sem carteira assinada, sem férias, sem 13º, sem FGTS,
sem licença-maternidade, sem aposentadoria, sem proteção social alguma. Ele
trabalha mais que um empregado formal, ganha menos,
e arcar com todos os custos da atividade (bicicleta,
manutenção, celular, internet, combustível humano, sua energia para pedalar).
O "empreendedorismo" não é uma escolha. É
uma imposição — a única "opção" que sobrou para quem
foi expulso do mercado formal de trabalho.
2.2. A origem do termo: do trabalhador ao "colaborador"
Observa com precisão: "trabalhador não existe mais, no seu
lugar passou-se a ter o 'colaborador'".
A substituição do termo "trabalhador" por
"colaborador" não é inocente. É uma operação de engenharia
linguística que visa:
- Apassivar o
trabalhador — de sujeito de direitos, ele se torna "colaborador"
da empresa;
- Desresponsabilizar o patrão
— se o trabalhador "colabora", ele não é explorado; ele
"participa";
- Eliminar a
consciência de classe — se todos "colaboram", não há
conflito entre capital e trabalho; há "parceria";
- Justificar a
precarização — o "colaborador" não tem
direitos porque não é empregado; ele é "parceiro".
A mesma lógica se aplica ao "empreendedor": ele não é
explorado porque "escolheu" ser patrão de si mesmo. A exploração se disfarça
de liberdade.
2.3. A indústria do empreendedorismo: o SEBRAE e a
ideologia capital-fascista
Aponta. desde os anos 90 do século passado, o SEBRAE como
o principal propagador dessa ideologia no Brasil.
O SEBRAE — Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas — é
uma instituição estatal, financiada por contribuições compulsórias
das empresas. Sua missão declarada é "promover a competitividade e o
desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios".
Na prática, o SEBRAE atua como agência de propaganda do
capitalismo:
- Oferece cursos
de "empreendedorismo" para jovens que nunca terão
capital para abrir um negócio;
- Ensina
técnicas de "gestão" para trabalhadores que nunca serão
patrões;
- Promove a
ideia de que "ser empreendedor é melhor que ser
empregado" — quando a realidade é que o empreendedorismo é,
para a maioria, sinônimo de precarização.
Essa ideologia é capital-fascista porque:
- Capitalista — serve
aos interesses do capital, que se beneficia da multiplicação de
trabalhadores precarizados;
- Fascista — porque
naturaliza a hierarquia, culpabiliza a vítima, divide a
classe trabalhadora e elimina a solidariedade.
2.4. O empreendedorismo do crime
Vou além: "Participar também de uma facção é ser
empreendedor [do crime]".
Essa é uma observação perturbadora — e verdadeira. O tráfico de drogas,
a milícia, o crime organizado funcionam como empresas:
- Têm
hierarquia, divisão de trabalho, metas de lucro;
- Oferecem
"oportunidades" para jovens que não as encontram no mercado
formal;
- Prometem
"ascensão social" rápida — o "empreendedorismo" que a
sociedade nega.
O jovem da periferia que entra para o tráfico não está apenas
cometendo um crime. Está seguindo o único modelo de
"empreendedorismo" que lhe foi apresentado — o modelo que
promete riqueza rápida, respeito e poder, ainda que à custa da vida.
III. A IDEOLOGIA DO EMPREENDEDORISMO: COMO ELA
OPERA
3.1. A culpabilização da vítima
A ideologia do empreendedorismo culpabiliza a vítima:
- Se você é
pobre, é porque não se esforçou;
- Se você não
tem emprego, é porque não buscou oportunidades;
- Se você
depende do Bolsa Família, é porque não quer trabalhar;
- Se você não
enriqueceu, é porque não empreendeu. Ou não soube empreender.
Essa lógica ignora as estruturas — o desemprego
estrutural, a concentração de renda, a exclusão social, o racismo, o machismo,
a desigualdade de oportunidades. Ela transforma problemas coletivos em fracassos
individuais.
3.2. A naturalização da precarização
A ideologia do empreendedorismo naturaliza a precarização:
- "Não ter
carteira assinada é ser 'autônomo'";
- "Não ter
férias é ser 'flexível'";
- "Não ter
aposentadoria é ser 'independente'";
- "Trabalhar
12 horas por dia é ser 'dedicado'".
O que é exploração [de si para consigo] é apresentado como liberdade.
O que é precarização é apresentado como oportunidade.
3.3. A destruição da solidariedade de classe
A ideologia do empreendedorismo destrói a solidariedade de
classe:
- O trabalhador
não se vê como trabalhador — vê-se como "empreendedor";
- O pobre não se
solidariza com o pobre — ele o despreza ("pobre é quem recebe Bolsa
Família");
- O explorado
não luta contra o explorador — ele sonha em se tornar explorador.
O capitalismo vence quando o trabalhador passa a defender o patrão.
IV. A DIMENSÃO ELEITORAL: O EMPREENDEDOR VOTA
NA DIREITA
4.1. O eleitorado do empreendedorismo
Observa que: "Eleitoralmente, todo esse pessoal é um
eleitor do político da direita à extrema-direita, fascista, bolsonarista."
Essa observação é confirmada por pesquisas. O eleitorado [“pobre de
direita”] que se identifica como "empreendedor" — autônomos,
microempreendedores individuais (MEIs), trabalhadores de aplicativo — tende a
votar na direita e na extrema-direita, porque passou a:
- Acreditar na
meritocracia — e a direita é a defensora da
meritocracia;
- Rejeitar a
regulação — e a direita promete menos impostos,
menos regras, menos "burocracia";
- Temer o
comunismo — e a direita apresenta o comunismo como
o inimigo perverso, demoníaco!!;
- Sonhar com
riqueza — e a direita promete a riqueza como
recompensa do esforço. Promessa que nunca é cumprida!!
4.2. A "guerra cultural" e a classe média
precarizada
A direita explora a frustração da classe média precarizada —
aqueles que perderam o emprego formal, que viram seu padrão de vida cair, que
se sentem "traídos" pelo sistema. Para esses, o bolsonarismo oferece:
- Um inimigo — o
comunista, o petista, o "vagabundo" que "vive do Bolsa
Família";
- Uma identidade — o
"empreendedor", o "patriota", o "cidadão de
bem";
- Uma esperança — a
promessa de que "dias melhores virão" se a "esquerda for
derrotada". Varrida da terra!!
4.3. Como a esquerda pode reverter isso?
A pergunta que faço, sei, é crucial para a esquerda: "Com
que fala/linguagem a esquerda possa reverter isso?!"
A resposta exige abandonar a linguagem burocrática... e adotar
a linguagem do cotidiano:
1.
Falar da vida real — não de "precarização do trabalho", mas de "você
trabalha 12 horas por dia e não tem férias";
2.
Desmascarar a ideologia — mostrar que o "empreendedorismo" é uma armadilha, não
uma oportunidade;
3.
Construir solidariedade — dizer que o pobre não é inimigo do pobre; o inimigo é quem faz
parte do sistema que os explora, e que sistema é esse... formado com quem...;
4.
Oferecer alternativas — não apenas criticar o empreendedorismo, mas propor economia
solidária, cooperativismo, trabalho digno;
5.
Ocupar os espaços — igrejas, escolas, redes sociais, rádios comunitárias, feiras,
...
A fala, conforme seja empregada, e por quem é empregada, tem o dom de
escravizar e/ou libertar mental e fisicamente seu receptor.
V. FINALISANDO: A PALAVRA QUE LIBERTA
O jovem entregador que disse "não sou pobre, sou
empreendedor" não é um vilão. É uma vítima — vítima de
uma ideologia que o convenceu a odiar sua própria classe, a rejeitar
sua própria identidade, a sonhar com uma riqueza que nunca chegará
a ele.
Ele é o produto de um Brasil que destruiu o trabalho e endeusou
o empreendedorismo; que eliminou os direitos e prometeu
a liberdade como se sem liberdade esteja a viver; que concentrou a renda e culpou
os pobres pela própria pobreza.
A esquerda precisa falar com ele. Não com desprezo, não com
superioridade, não com jargão. Mas com verdade, com empatia,
com propostas concretas, executáveis.
Porque ele não é o inimigo. Ele é o aliado que ainda não sabe
que é — o trabalhador que ainda não se reconhece como trabalhador, o
explorado que ainda não se reconhece como explorado.
A fala que liberta é a fala que o faz reconhecer-se no mundo real, e não
no mundo paralelo.
— Porque não há mais trabalhadores. Há empreendedores — que morrem de
fome trabalhando. Há "colaboradores" — que colaboram com a própria
exploração. Há "patrões de si mesmos" — que nunca foram tão escravos,
de si.
— E há os que ainda lutam para que a palavra "trabalhador" volte
a significar dignidade, direitos, solidariedade.
Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA
Imperatriz (MA), 09 de outubro de 2026
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