domingo, 18 de outubro de 2026

As Raízes Memtais do Presente

 AS RAÍZES MENTAIS DO PRESENTEÍSMO POLÍTICO BRASILEIRO

Por que o povo brasileiro vota na direita e na extrema-direita?

Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes — Num diálogo e comunhão holística transdisciplinar

 

 

1. A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Há uma pergunta que atravessa a história do Brasil e que, no entanto, raramente é formulada com a seriedade que merece: por que o povo brasileiro, majoritariamente pobre, trabalhador e explorado, vota em políticos que representam os interesses dos ricos, dos exploradores, dos que sempre estiveram do outro lado?

 

A resposta não está apenas na política. Está na antropologia, na sociologia, na psicologia, na história, na religião e na cultura. Está na forma como o brasileiro mentalmente vive o tempo, na forma mental como se relaciona com o poder, na forma como aprende [ou não aprende] a pensar criticamente.

 

Este ensaio busca compreender essa complexidade. Não para justificar o voto na extrema-direita — mas para entender suas raízes, e, a partir daí, transformar a realidade.

 

2. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA: O TEMPO PRESENTE E A ANSIEDADE DO AGORA

2.1. O tempo psicológico e o tempo cronológico

Identifico desde os anos 80 do século passado um fenômeno fundamental: o povo brasileiro vive no tempo psicológico presente. Ele ignora o passado — não quer lembrar das ditaduras, das escravidões, das opressões. Da vida que viveu. E ignora o futuro — não planeja, não projeta, não sonha com o longo prazo.

 

O tempo psicológico é o tempo vivido, o tempo sentido. É diferente do tempo cronológico, que é o tempo medido pelo relógio, o tempo que passa independentemente da nossa vontade.

 

O brasileiro não sabe que vive o tempo cronológico. Ele não percebe que o passado está sempre presente — nas estruturas, nas desigualdades, nas mentalidades. Ele não vê que o futuro está sendo construído agora, a cada escolha, a cada voto.

 

2.2. A ansiedade do presente

Essa vivência mental no presente gera uma ansiedade profunda. O brasileiro busca satisfazer seus interesses imediatamente — mas a satisfação nunca chega. Porque as causas da insatisfação são estruturais, não conjunturais.

 

Ele busca realizar sua satisfação aqui e agora:

  1. Na religião — que promete o paraíso, mas não resolve a fome;
  2. Na economia — que promete prosperidade, mas concentra riqueza;
  3. No político — que promete salvação, mas serve ao capital onde concentra riqueza.

 

E o político que melhor explora essa ansiedade é o político de direita e de extrema-direita. Ele promete o aqui e agora: "Vou resolver seu problema hoje. Vou te dar “na palma da mão” o que você precisa agora." Ele não tem pudor em prometer o que nunca cumprirá. Porque sabe que o eleitor não cobrará — porque não lembra do que foi prometido, porque não planeja o futuro.

 

2.3. O messianismo político

O brasileiro busca um salvador. Alguém que resolva seus problemas sem que ele precise fazer nada. Alguém que faça por ele o que ele não sabe ou não pode fazer por si mesmo.

 

Esse messianismo é infantilizante. Ele retira do cidadão a responsabilidade sobre seu próprio destino. Ele transfere ao líder a tarefa de transformar a realidade. E o líder, claro, nunca cumpre a promessa — porque não pode, ou porque não quer.

 

O resultado: gerações inteiras esperando por um salvador que nunca chega. Enquanto isso, a vida passa, as oportunidades se perdem, a desigualdade se aprofunda. Se consolida. Eterniza.

 

3. A DIMENSÃO SOCIOLÓGICA: O CORONELISMO E O PATRIARCALISMO

3.1. O coronelismo

O coronelismo foi um sistema político que dominou o Brasil da República Velha [1889-1930]. Nele, o coronel — o grande proprietário de terras — controlava a vida política de sua região. Ele escolhia o candidato que o povo deveria votar. Ele mandava no voto do eleitor.

 

O coronelismo acabou formalmente. Mas suas estruturas permanecem. O "coronel" foi substituído pelo "rico" — o empresário, o fazendeiro, o dono da mídia, o líder religioso. Ele não manda mais no voto pela força como fazia o coronel. Ele manda pela influência, pela persuasão, pelo condicionamento.

 

O "rico" financia o candidato. O "rico" controla a mídia. O "rico" pauta o debate. O "rico" define quem é "confiável" e quem é "inimigo do povo". E o povo, sem consciência crítica, acredita que está escolhendo livremente — quando, na verdade, está apenas ratificando a escolha do "rico".

 

3.2. O patriarcalismo

O Brasil foi construído sobre uma estrutura patriarcal. O pai mandava na família. O senhor mandava nos escravos. O coronel mandava no povo. O presidente mandava na nação. Tudo uma questão cultural de mandar, e quem podia mandar, mandava.

 

Essa estrutura hierárquica e autoritária moldou a mentalidade brasileira. O povo aprendeu a obedecer. Aprendeu a respeitar a autoridade — mesmo quando ela é arbitrária, violenta, injusta.

 

O bolsonarismo reproduz essa estrutura. O líder é o pai — o "mito", o "salvador", o "capitão". Ele manda. Os filhos são os herdeiros — os príncipes que darão continuidade à dinastia. O povo é a família — que deve obedecer, agradecer, servir mansamente como gado.

 

3.3. A cultura da obediência

O brasileiro foi educado para obedecer. A escola ensina a obedecer. A igreja ensina a obedecer. A família ensina a obedecer. A mídia ensina a obedecer.

 

Quem obedece é bonzinho. Quem questiona é rebelde-comunista. Quem pensa é perigoso. Quem critica é inimigo. É esquerdista.

 

Essa cultura da obediência é o caldo de cultura do autoritarismo. Ela prepara o terreno para o messias que manda, para o líder que ordena, para o ditador que impõe.

 

4. A DIMENSÃO ANTROPOLÓGICA: A RELIGIÃO COMO ANESTÉSICO

4.1. A religiosidade brasileira

O Brasil é um país profundamente religioso. Segundo o Censo de 2022, 89,2% da população se declara religiosa. Desses, 83,4% são cristãos — 64,4% católicos e 22,2% evangélicos.

 

A religiosidade não é um problema em si. O problema é quando a religião é instrumentalizada para fins políticos e econômicos.

 

4.2. A Teologia da Prosperidade

A Teologia da Prosperidade — que domina as igrejas neopentecostais — ensina que:

  1. Deus quer que os fiéis sejam ricos;
  2. A pobreza é sinal de falta de fé;
  3. O dízimo é investimento — e quem não paga rouba de Deus;
  4. A bênção material é prova da eleição divina.

 

Essa teologia anestesia o fiel. Ele não questiona a desigualdade — porque acredita que a riqueza é bênção de Deus. Ele não luta por justiça social — porque acredita que a pobreza é falta de fé. Ele não se organiza politicamente — porque acredita que a transformação vem de Deus, não dos homens. Isso é FATO!!

 

4.3. A Teologia do Domínio

A Teologia do Domínio, escatológica — que cresce no Brasil — ensina que os cristãos têm o mandato divino de dominar todas as esferas da sociedade. O governo civil existe para implementar as leis de Deus. Se o governo não o faz, os cristãos devem tomá-lo para fazê-lo.

 

Essa teologia sacraliza o poder político de direita, extrema-direita, fascista. O líder não é apenas um presidente — é um ungido. Quem o critica não critica um político — critica a Deus. Quem o combate não combate um governo — combate a fé.

 

4.4. A fusão com o bolsonarismo

A fusão entre a religião e o bolsonarismo é estratégica:

  1. A igreja fornece base de massa obediente: volúvel e levável;
  2. O bolsonarismo fornece poder estatal;
  3. A igreja fornece legitimidade divina: a escatologia;
  4. O bolsonarismo fornece proteção jurídica.

 

O resultado: milhões de fiéis que votam em criminosos porque foram convencidos de que são enviados de Deus. Homens de Deus.

 

5. A DIMENSÃO POLÍTICA: A FÁBRICA DE ALIENAÇÃO

5.1. A educação que não educa

A escola brasileira não ensina a pensar. Ela ensina a obedecer. Ela ensina a decorar. Ela ensina a passar em uma prova, no vestibular. Ela não ensina a questionar, a duvidar, a criticar.

 

O resultado: uma população sem consciência crítica, dialética, sem capacidade de análise, sem ferramentas para ler e compreender o mundo.

 

5.2. A mídia que manipula

A grande mídia — especialmente a Rede Globo — manipula, distorce a informação. Ela esconde o que contraria seus interesses e de que ela representa patrimonial e financeiramente. Ela amplifica o que os favorecem. Ela constrói narrativas que condicionam a percepção da realidade.

 

O resultado: uma população desinformada, manipulada, alienada, condicionada a votar em quem a mídia diz que é "confiável".

 

5.3. A política que engana

Os políticos de direita, extrema-direita e fascista exploram a ansiedade do presente. Prometem em nome de Deus soluções mágicas. Oferecem salvação imediata. E o povo, desesperado pelo o aqui e agora, acredita.

 

O resultado: gerações inteiras votando em quem nunca cumpre o que promete — mas que sempre aparece com uma nova promessa na próxima eleição.

 

6. A DIMENSÃO HISTÓRICA: A HERANÇA DO COLONIALISMO

6.1. A colonização como matriz

O Brasil foi colonizado [e se mantém] sob a lógica da exploração, da extração, da subordinação. O colonizador mandava. O colonizado obedecia. O colonizador explorava. O colonizado produzia para o colonizador.

 

Essa lógica nunca foi superada. Ela apenas mudou de forma. O colonizador externo foi substituído pelo colonizador interno — o latifundiário, o empresário, o político corrupto. E o colonizado continua a obedecer, a produzir para o colonizador, a acreditar que o colonizador é seu salvador.

 

6.2. A escravidão como ferida aberta

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão — em 1888. Mas a mentalidade escravocrata permanece. O senhor manda. O escravo obedece. O senhor explora. O escravo produz.

 

O bolsonarismo reproduz essa mentalidade. O líder é o senhor. O povo é o escravo. O senhor promete proteção. O escravo agradece. O senhor explora. O escravo não percebe.

 

7. POR FIM: A POSSIBILIDADE [REMOTA] DA TRANSFORMAÇÃO

O quadro que se desenha é sombrio. Mas não é definitivo. A história não acabou. O futuro ainda está em disputa.

 

A transformação exige:

1.      Educação crítica — que ensine a pensar, a duvidar, a questionar;

2.      Comunicação popular — que dispute o imaginário da população;

3.      Organização popular — que construa poder de baixo para cima;

4.      Consciência histórica — que faça o povo lembrar do passado para transformar o futuro;

5.      Esperança militante — que não se renda ao pessimismo, mas aja para mudar a realidade.

 

O povo brasileiro não é ignorante por natureza. É ignorante por condição. E a condição pode ser transformada.

 

— Porque a alienação não é o fim. É o começo da luta. E quem desperta não volta a dormir no fundo da caverna, da caixa.

 

Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes

Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA

Em diálogo e comunhão holística transdisciplinar...

Imperatriz [MA], 9 a 18 de outubro de 2026

 

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