segunda-feira, 12 de outubro de 2026

AS NEGLIGÊNCIAS VOLUNTÁRIAS DAS ESQUERDAS BRASILEIRAS: A CEGUEIRA QUE NOS LEVOU AO ABISMO

Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes – Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – em diálogo holístico e transdisciplinar com você...

 

1. À GUISA DE ANTELÓQUIO: A AUTOCRÍTICA QUE NINGUÉM QUER FAZER

Há um silêncio ensurdecedor na esquerda brasileira. Não o silêncio dos que não têm o que dizer, mas o silêncio dos que não querem ouvir — especialmente quando a crítica vem de dentro.

 

Com sete décadas, dez meses e uns dias de vida e mais de cinco décadas de militância e observação, formulo uma acusação que poucos ousam fazer: as esquerdas brasileiras foram negligentes. Não por acidente, não por erro tático, mas por negligência voluntária — a recusa consciente de analisar a conjuntura, de ler o cenário, de praticar a dialética. De procurar compreender racionalmente o mundo mental do povo brasileiro.

 

O resultado está diante de nós: um país à beira de eleger o inferno como presidente. E a esquerda, em grande parte, não percebeu sua própria contribuição para esse desastre.

 

2. A NEGLIGÊNCIA VOLUNTÁRIA: O QUE É E COMO SE MANIFESTA

2.1. Abandono da dialética racional

A dialética não é um luxo acadêmico. É a ferramenta de análise da realidade — a capacidade de compreender as contradições, os movimentos, as relações de força. Sem ela, a política se torna achismo, intuição, palpite.

A esquerda brasileira abandonou a dialética. Trocou-a por:

  1. Dogmas repetidos sem análise;
  2. Identitarismos [plantado geopoliticamente pelos “democratas” estadunidenses] que fragmentam a luta no campo da esquerda;
  3. Guerras internas que consomem energias;
  4. Pureza ideológica [sectária] que isola e esteriliza.

 

O resultado: uma esquerda que não entende, porque não percebe o mundo que quer transformar.

 

2.2. Abandono da análise de conjuntura

A análise de conjuntura é a bússola da ação política. Ela responde: onde estamos? Para onde vamos? Quais as forças em jogo? Quais as oportunidades e ameaças presentes e futuras?

 

A esquerda brasileira abandonou essa bússola. Navega sem mapa, sem destino, sem estratégia. Reage a cada golpe com indignação moral — que não muda nada — em vez de contra-ofensiva organizada.

 

2.3. Abandono da leitura de cenário organizativo

A leitura de cenário organizativo é a capacidade de perceber o campo de batalha. Quem são os aliados? Quem são os adversários? Quais as armas de cada lado? Onde estão as trincheiras?

 

A esquerda brasileira abandonou essa percepção. Vive em guetos ideológicos — grupos de WhatsApp, redes sociais, círculos acadêmicos — onde todos [em cada grupo] concordam com todos [de dentro do próprio grupo], e onde ninguém ouve o que o outro lado [fora do grupo] está dizendo.

 

3. AS ELEIÇÕES DE 2014: O PONTO DE INFLEXÃO

Identifico com precisão o momento em que a esquerda começou a perder a batalha:

Quando o "cocaleiro" perdeu a disputa eleitoral para a Sra. Dilma Rousseff e passou a questionar a eleição.

 

Aécio Neves não aceitou o resultado. Pediu recontagem. Questionou as urnas. Criou o caos. E a esquerda — em vez de responder com "Somos Todos Dilma" — ficou em silêncio diante do “somos todos aecio”; “somos todos cunha”.

 

3.1. As palavras de ordem que a esquerda não gritou

A direita gritou: "Somos todos Aécio"

A esquerda deveria ter respondido: "Somos todos Dilma"

 

A direita gritou: "Somos todos Cunha"

A esquerda deveria ter respondido: "Somos todos contra o golpe"

 

A direita gritou: "Fora Dilma"

A esquerda deveria ter respondido: "Fora golpistas"

 

A direita gritou: "Intervenção militar"

A esquerda deveria ter respondido: "Democracia sempre"

 

A direita hoje grita: "O Brasil estar todo do mesmo lado" do flavio milícia

A esquerda deveria responder: "O Brasil estar do lado da democracia real e da soberania/independência com LULA"

 

O silêncio da esquerda legitimou o discurso golpista. Quando a direita dizia nas ruas, praças e redes sociais que a eleição havia sido fraudada, a esquerda não ocupou o mesmo espaço e disse "a eleição foi limpa". Quando a direita pedia nas ruas, praças e redes sociais impeachment, a esquerda não ocupou espaços e disse "não há crime de responsabilidade". Quando a direita gritava nas ruas, praças e redes sociais "somos todos Bolsonaro", a esquerda não fez o mesmo e gritou "somos todos Lula".

 

3.2. A consequência: o bolsonarismo

O bolsonarismo não nasceu do nada. Nasceu:

  1. Do silêncio da esquerda diante do golpismo de Aécio;
  2. Da omissão da esquerda diante do impeachment de Dilma;
  3. Da fragmentação da esquerda diante da Lava Jato;
  4. Da incapacidade da esquerda de construir uma narrativa compreensiva e alternativa.

 

O resultado: metade da população brasileira se diz, subliminarmente, "somos todos bolsonaro". Metade do país abraçou o crime, a violência, a mentira, o golpismo — porque a esquerda não ofereceu outra narrativa.

 

4. A CRÍTICA AOS MODELOS "ISOLADOS" E "PRESOS MENTALMENTE"

Faço uma observação crucial: China, Rússia, Venezuela e outros países não foram negligentes com seus modelos de democracia. E, por isso mesmo, foram criticados e acusados de ditaduras por grupos de esquerda isolados e presos mentalmente em seus guetos ideológicos.

 

4.1. O que esses países fizeram de diferente?

4.1.1 – China – O que fizeram:

Construíram um modelo de desenvolvimento soberano, com controle estatal sobre setores estratégicos, e não aceitaram imposições externas

Crítica que recebem: "Ditadura comunista"

 

4.1.2 – Rússia – O que fizeram:

Recusaram-se a se submeter à OTAN e à hegemonia americana, defendendo sua soberania

Crítica que receberam: "Regime autoritário"

 

4.1.3 – Venezuela – O que fizeram:

Enfrentaram sanções, bloqueios e tentativas de golpe promovidos pelos EUA, e resistiram

Crítica que receberam: "Ditadura de Maduro"

 

4.2. A lição que a esquerda brasileira não aprendeu

A lição é simples: a esquerda não pode ser negligente com sua própria defesa. Não pode aceitar passivamente as regras do jogo impostas pelo adversário. Não pode permitir que a direita e sua facção extremista fascista sequestre a narrativa da democracia e a use como arma contra a esquerda.

 

A esquerda brasileira, ao contrário, aceitou o enquadramento da direita e sua facção extremista fascista:

  1. Aceitou que a Lava Jato era "combate à corrupção" [e não lawfare/"ló-fér" [com som aberto no "é"] – significa guerra jurídica, o uso estratégico e abusivo das leis, dos processos judiciais e do sistema de justiça como uma arma para atacar, deslegitimar ou destruir um oponente];
  2. Aceitou que o impeachment de Dilma era "processo democrático" [e não golpe];
  3. Aceitou que Bolsonaro era "democraticamente eleito" [e não produto de um golpe];
  4. Aceita, agora, que Flávio Bolsonaro é um "candidato legítimo" [e não um criminoso].

 

5. O MOMENTO ATUAL: ÀS VÉSPERAS DO INFERNO

Alerto: estamos há alguns instantes de eleger o inferno presidente do Brasil. E a esquerda não percebe que contribuiu para isso.

 

5.1. O que está em jogo

Se Flávio Bolsonaro for eleito:

  1. A ditadura teocrática e as mortes em nome de deus serão instauradas;
  2. Os direitos sociais serão destruídos/anulados;
  3. A soberania nacional será entregue aos EEUU. Será a soberania de trump;
  4. A democracia será uma farsa;
  5. A esquerda será criminalizada, perseguida, morta, silenciada.

 

5.2. A cegueira da esquerda

A esquerda não percebe que:

  1. Sua fragmentação em guetos facilita a vitória da extrema-direita;
  2. Sua pureza ideológica a isola da população brasileira;
  3. Sua incapacidade de dialogar com os que foram seduzidos [não os fanatizados] pelo bolsonarismo a impede de resgatá-los da sedução;
  4. Sua negligência analítica a impede de prever e evitar o desastre político no Brasil.

 

6. POR FIM: A AUTOCRÍTICA NECESSÁRIA

Afirma: "estou certo de estar certo. INFELIZMENTE!!"

E estou certo. A esquerda brasileira foi negligente. Abandonou a dialética. Abandonou a análise de conjuntura. Abandonou a leitura de cenário. Isolou-se em guetos. Fragmentou-se em identitarismos sorismo. Perdeu a capacidade de falar com a maioria.

 

O resultado está diante de nós: um país à beira do abismo.

Mas ainda há tempo — pouco, mas há. A esquerda precisa:

1.      Reaprender a dialética racional — analisar racionalmente a realidade com rigor;

2.      Reconstruir a análise de conjuntura — saber onde está, para onde vai, quais as forças em jogo;

3.      Sair dos guetos — dialogar com quem pensa diferente, sem abrir mão dos princípios [ideológicos e dialéticos];

4.      Construir uma narrativa que dispute o imaginário da população;

5.      Organizar-se quanto frente ampla — porque sem ampla organização não há vitória.

A negligência foi voluntária. A recuperação também precisa ser.

 

— Porque a esquerda que não se analisa está condenada a repetir os erros que a levaram à derrota. E a derrota, agora, tem nome: fascismo na onda do bolsonarismo.

 

Professor Negreiros, Deuzimar Menezes

Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA

Imperatriz [MA], 12 de outubro de 2026

AS NEGLIGÊNCIAS VOLUNTÁRIAS DAS ESQUERDAS BRASILEIRAS: A CEGUEIRA QUE NOS LEVOU AO ABISMO Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes – Rád...