AS NEGLIGÊNCIAS VOLUNTÁRIAS DAS ESQUERDAS BRASILEIRAS: A CEGUEIRA QUE
NOS LEVOU AO ABISMO
Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes – Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – em
diálogo holístico e transdisciplinar com você...
1. À GUISA DE ANTELÓQUIO: A AUTOCRÍTICA QUE NINGUÉM QUER FAZER
Há um silêncio ensurdecedor na esquerda brasileira. Não o silêncio dos
que não têm o que dizer, mas o silêncio dos que não querem ouvir —
especialmente quando a crítica vem de dentro.
Com sete décadas, dez meses e uns dias de vida e mais de cinco décadas
de militância e observação, formulo uma acusação que poucos ousam fazer: as
esquerdas brasileiras foram negligentes. Não por acidente, não por erro
tático, mas por negligência voluntária — a recusa consciente
de analisar a conjuntura, de ler o cenário, de praticar a dialética. De
procurar compreender racionalmente o mundo mental do povo brasileiro.
O resultado está diante de nós: um país à beira de eleger o inferno
como presidente. E a esquerda, em grande parte, não percebeu sua
própria contribuição para esse desastre.
2. A NEGLIGÊNCIA VOLUNTÁRIA: O QUE É E COMO SE MANIFESTA
2.1. Abandono da
dialética racional
A dialética não é um luxo acadêmico. É a ferramenta de análise
da realidade — a capacidade de compreender as contradições, os
movimentos, as relações de força. Sem ela, a política se torna achismo, intuição, palpite.
A esquerda brasileira abandonou a dialética. Trocou-a por:
- Dogmas repetidos
sem análise;
- Identitarismos [plantado
geopoliticamente pelos “democratas” estadunidenses] que fragmentam a luta
no campo da esquerda;
- Guerras
internas que consomem energias;
- Pureza
ideológica [sectária] que isola e esteriliza.
O resultado: uma esquerda que não entende, porque não percebe o
mundo que quer transformar.
2.2. Abandono da
análise de conjuntura
A análise de conjuntura é a bússola da ação política. Ela
responde: onde estamos? Para onde vamos? Quais as forças em jogo? Quais as
oportunidades e ameaças presentes e futuras?
A esquerda brasileira abandonou essa bússola. Navega sem mapa, sem
destino, sem estratégia. Reage a cada golpe com indignação
moral — que não muda nada — em vez de contra-ofensiva
organizada.
2.3. Abandono da
leitura de cenário organizativo
A leitura de cenário organizativo é a capacidade de perceber o
campo de batalha. Quem são os aliados? Quem são os adversários? Quais as
armas de cada lado? Onde estão as trincheiras?
A esquerda brasileira abandonou essa percepção. Vive em guetos
ideológicos — grupos de WhatsApp, redes sociais, círculos acadêmicos —
onde todos [em cada grupo] concordam com todos [de dentro do próprio grupo], e
onde ninguém ouve o que o outro lado [fora do grupo] está dizendo.
3. AS ELEIÇÕES DE 2014: O PONTO DE INFLEXÃO
Identifico com precisão o momento em que a esquerda começou a perder a
batalha:
Quando o "cocaleiro" perdeu a disputa eleitoral para a Sra.
Dilma Rousseff e passou a questionar a eleição.
Aécio Neves não aceitou o resultado. Pediu recontagem. Questionou as
urnas. Criou o caos. E a esquerda — em vez de responder com "Somos
Todos Dilma" — ficou em silêncio diante do “somos todos aecio”; “somos
todos cunha”.
3.1. As palavras de
ordem que a esquerda não gritou
A direita gritou: "Somos
todos Aécio"
A esquerda deveria
ter respondido: "Somos todos Dilma"
A direita gritou: "Somos
todos Cunha"
A esquerda deveria
ter respondido: "Somos todos contra o golpe"
A direita gritou: "Fora
Dilma"
A esquerda deveria
ter respondido: "Fora golpistas"
A direita gritou: "Intervenção
militar"
A esquerda deveria
ter respondido: "Democracia sempre"
A direita hoje grita:
"O Brasil estar todo do mesmo lado" do flavio milícia
A esquerda deveria responder:
"O Brasil estar do lado da democracia real e da soberania/independência
com LULA"
O silêncio da esquerda legitimou o discurso golpista. Quando
a direita dizia nas ruas, praças e redes sociais que a eleição havia sido
fraudada, a esquerda não ocupou o mesmo espaço e disse "a eleição
foi limpa". Quando a direita pedia nas ruas, praças e redes sociais impeachment,
a esquerda não ocupou espaços e disse "não há crime de
responsabilidade". Quando a direita gritava nas ruas, praças e redes
sociais "somos todos Bolsonaro", a esquerda não fez o mesmo e gritou "somos
todos Lula".
3.2. A
consequência: o bolsonarismo
O bolsonarismo não nasceu do nada. Nasceu:
- Do silêncio da
esquerda diante do golpismo de Aécio;
- Da omissão da
esquerda diante do impeachment de Dilma;
- Da fragmentação da
esquerda diante da Lava Jato;
- Da incapacidade da
esquerda de construir uma narrativa compreensiva e alternativa.
O resultado: metade da população brasileira se diz,
subliminarmente, "somos todos bolsonaro". Metade do país abraçou
o crime, a violência, a mentira, o golpismo — porque a esquerda não
ofereceu outra narrativa.
4. A CRÍTICA AOS MODELOS "ISOLADOS" E "PRESOS
MENTALMENTE"
Faço uma observação crucial: China, Rússia, Venezuela e outros
países não foram negligentes com seus modelos de democracia. E, por isso
mesmo, foram criticados e acusados de ditaduras por grupos de esquerda
isolados e presos mentalmente em seus guetos ideológicos.
4.1. O que esses
países fizeram de diferente?
4.1.1 – China – O
que fizeram:
Construíram um
modelo de desenvolvimento soberano, com controle estatal sobre setores
estratégicos, e não aceitaram imposições externas
Crítica que recebem:
"Ditadura comunista"
4.1.2 – Rússia – O
que fizeram:
Recusaram-se a se
submeter à OTAN e à hegemonia americana, defendendo sua soberania
Crítica que
receberam: "Regime autoritário"
4.1.3 – Venezuela –
O que fizeram:
Enfrentaram sanções,
bloqueios e tentativas de golpe promovidos pelos EUA, e resistiram
Crítica que
receberam: "Ditadura de Maduro"
4.2. A lição que a
esquerda brasileira não aprendeu
A lição é simples: a esquerda não pode ser negligente com sua
própria defesa. Não pode aceitar passivamente as regras do jogo impostas
pelo adversário. Não pode permitir que a direita e sua facção extremista
fascista sequestre a narrativa da democracia e a use como arma
contra a esquerda.
A esquerda brasileira, ao contrário, aceitou o enquadramento da
direita e sua facção extremista fascista:
- Aceitou
que a Lava Jato era "combate à corrupção" [e não lawfare/"ló-fér"
[com som aberto no "é"] – significa guerra jurídica, o
uso estratégico e abusivo das leis, dos processos judiciais e do sistema
de justiça como uma arma para atacar, deslegitimar ou destruir um oponente];
- Aceitou
que o impeachment de Dilma era "processo democrático" [e não
golpe];
- Aceitou
que Bolsonaro era "democraticamente eleito" [e não produto de um
golpe];
- Aceita,
agora, que Flávio Bolsonaro é um "candidato legítimo" [e não um
criminoso].
5. O MOMENTO ATUAL: ÀS VÉSPERAS DO INFERNO
Alerto: estamos há alguns instantes de eleger o inferno
presidente do Brasil. E a esquerda não percebe que contribuiu para isso.
5.1. O que está em
jogo
Se Flávio Bolsonaro for eleito:
- A
ditadura teocrática e as mortes em nome de deus serão
instauradas;
- Os
direitos sociais serão destruídos/anulados;
- A
soberania nacional será entregue aos EEUU. Será
a soberania de trump;
- A
democracia será uma farsa;
- A
esquerda será criminalizada, perseguida, morta, silenciada.
5.2. A cegueira da
esquerda
A esquerda não percebe que:
- Sua
fragmentação em guetos facilita a vitória da
extrema-direita;
- Sua
pureza ideológica a isola da população
brasileira;
- Sua
incapacidade de dialogar com os
que foram seduzidos [não os fanatizados] pelo bolsonarismo a impede de
resgatá-los da sedução;
- Sua
negligência analítica a impede de prever e evitar
o desastre político no Brasil.
6. POR FIM: A AUTOCRÍTICA NECESSÁRIA
Afirma: "estou certo de estar certo. INFELIZMENTE!!"
E estou certo. A esquerda brasileira foi negligente. Abandonou a dialética.
Abandonou a análise de conjuntura. Abandonou a leitura de cenário. Isolou-se em
guetos. Fragmentou-se em identitarismos sorismo. Perdeu a capacidade de falar
com a maioria.
O resultado está diante de nós: um país à beira do abismo.
Mas ainda há tempo — pouco, mas há. A esquerda precisa:
1. Reaprender
a dialética racional — analisar racionalmente a realidade com rigor;
2. Reconstruir
a análise de conjuntura — saber onde está, para onde vai, quais as
forças em jogo;
3. Sair
dos guetos — dialogar com quem pensa diferente, sem abrir mão dos princípios
[ideológicos e dialéticos];
4. Construir
uma narrativa que dispute o imaginário da população;
5. Organizar-se
quanto frente ampla — porque sem ampla organização não há vitória.
A negligência foi voluntária. A recuperação também precisa ser.
— Porque a esquerda que não se analisa está condenada a repetir os erros
que a levaram à derrota. E a derrota, agora, tem nome: fascismo na onda do
bolsonarismo.
Professor Negreiros, Deuzimar Menezes
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA