ACREDITAR; CRER — A FÉ COMO FUNDAMENTO, A CRENÇA COMO ARMADILHA
Ensaio Metafilosófico, Metafísico, Antropológico e Fenomenológico
Uma leitura de cenário com análise de conjuntura sobre o ato de
acreditar
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Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes –
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – Pesquisador
Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares
em Educação, Meio Ambiente e Política
I. PRÓLOGO — A PERGUNTA QUE NOS HABITA
Estamos o tempo todo, todo o tempo, na busca pelo que acreditar;
de crer em algo, em alguma coisa. Ou não.
O que significa, verdadeiramente, acreditar? E crer? E qual a
diferença — se é que há — entre essas duas palavras que usamos como sinônimos,
mas que carregam abismos de significado?
Desde o primeiro vagido, antes mesmo da linguagem, o ser que
viríamos a chamar de humano já buscava algo em que se apoiar. A mãe, o seio, o
calor, a voz. Depois, os deuses, os mitos, os heróis. Depois, a ciência, a
razão, a verdade. Depois — sempre — a dúvida.
Acreditar não é um ato entre outros. É o ato
fundador. Antes de pensar, acreditamos. Antes de saber, cremos.
Antes de ser, somos aquilo que acreditamos ser.
Mas o que significa, verdadeiramente, acreditar? E crer? E qual a
diferença — se é que há — entre essas duas palavras que usamos como sinônimos,
mas que carregam abismos de significado?
Este ensaio é uma travessia por esse abismo. Uma travessia
metafilosófica — porque interroga os fundamentos do próprio filosofar.
Metafísica — porque busca o que está para além da física, para além do dado
imediato. Antropológica — porque pergunta pelo humano, por sua condição, por
seu destino. Fenomenológica — porque parte da experiência vivida, da
consciência que se volta sobre si mesma e se pergunta: o que é isso que eu
chamo de crer?
E é, também, uma travessia pessoal. Eu, Professor Negreiros — que
assina este ensaio — chega aos 70 anos e uns meses sem conseguir acreditar que
etimológica e morfologicamente somos imagem e semelhança de deus; e seres
humanos em sua essência.
Esta é a minha pergunta. E é, também, a pergunta de todos nós.
II. PARMÊNIDES E A CRENÇA NO SER — O PONTO DE PARTIDA
2.1.
O poeta do ser
Parmênides de Eleia, no século VI a.C., escreveu um poema — Sobre a
Natureza — no qual narra uma viagem iniciática. Uma deusa o
conduz por um caminho que se bifurca: o caminho da verdade [alétheia]
e o caminho da opinião [dóxa].
No caminho da verdade, Parmênides descobre que o ser é, e o
não-ser não é. Tudo o que existe participa do ser. Nada pode
surgir do nada. Nada pode se dissolver no nada. O ser é uno, eterno, imutável,
indivisível.
No caminho da opinião, Parmênides encontra o mundo dos mortais — o
mundo do devir, da mudança, da multiplicidade, da aparência. É o mundo em que
acreditamos viver. Mas é um mundo de crenças, não de
verdades.
2.2.
A crença como caminho da opinião
A grande contribuição de Parmênides para a nossa reflexão é
esta: a crença pertence ao caminho da opinião. Não é
conhecimento verdadeiro. É dóxa — aparência, conjectura, suposição.
Quando acreditamos, não estamos no caminho da verdade. Estamos no
caminho da opinião. E o caminho da opinião é o caminho da pluralidade,
da contradição,
do erro.
Acreditar é, portanto, reconhecer que não sabemos. É admitir que nossa
relação com o mundo não é de certeza, mas de fé —
uma fé que pode ser bem ou mal fundada, mas que é sempre fé.
O que Parmênides nos ensina é que a crença não
é um defeito. É uma condição. Não podemos viver sem acreditar.
Mas podemos — e devemos — examinar aquilo em que acreditamos.
III. A METAFÍSICA DA CRENÇA — O QUE ESTÁ EM JOGO QUANDO CREMOS
3.1.
A crença como relação com o absoluto
Toda crença é uma relação com algo que transcende o sujeito que
crê. Cremos em algo — em Deus, na ciência, no amor, na
justiça, no outro. E esse algo, por definição, não está
disponível para verificação imediata.
Crer em Deus é crer em algo que não se vê. Crer na ciência é crer
em métodos que não dominamos integralmente. Crer no amor é crer em algo que não
se pode provar. Crer no outro é crer em alguém que nunca será totalmente
conhecido.
A crença é, portanto, uma relação com o absoluto —
ou, ao menos, com algo que se apresenta como absoluto para quem crê. E é
essa relação que dá sentido à vida.
3.2.
A metafísica da dúvida
Mas se toda crença é uma relação com o absoluto, então a dúvida é a
sombra da crença. Não há crença sem dúvida. Não há fé sem
incerteza. Não há certeza que não seja assombrada pela possibilidade do erro.
Chega Eu aos 70 anos e uns meses sem conseguir
acreditar que somos imagem e semelhança de deus. Essa
incapacidade de crer não é um defeito — é uma conquista.
É o resultado de uma vida inteira de questionamento, de observação, de
experiência.
A dúvida não é o contrário da fé. É o seu fundamento.
Só quem duvida pode crer verdadeiramente — porque só quem duvida sabe o que
está em jogo.
IV. A ANTROPOLOGIA DA CRENÇA — O HUMANO COMO ANIMAL CRENTE
4.1.
A condição humana como busca de sentido
O que distingue o humano dos outros animais não é a razão — os
animais também raciocinam. Não é a linguagem — os animais também se comunicam.
Não é a ferramenta — os animais também usam ferramentas.
O que distingue o humano é a necessidade de sentido.
O humano não se contenta em viver; ele precisa saber por que
vive. Não se contenta em morrer; ele precisa saber o que
há depois da morte. Não se contenta em sofrer; ele
precisa saber qual o sentido do sofrimento.
E como o sentido não está dado — não é acessível aos sentidos, não
é demonstrável pela razão — o humano precisa acreditar.
A crença é a resposta à pergunta pelo sentido. É o que preenche o vazio que a
razão não consegue preencher.
4.2.
O humano como animal que crê
Aristóteles definiu o humano como zoon logon echon —
o animal que tem logos, razão, palavra. Mas talvez a definição mais precisa
seja outra: o humano é o animal que crê.
Crer é a atividade mais humana que existe. Nenhum outro animal
crê. Nenhum outro animal se pergunta pelo sentido. Nenhum outro animal se
angustia com a morte. Nenhum outro animal constrói templos, escreve poemas,
cria filosofias.
O humano é o animal que precisa crer —
porque não pode suportar o vazio. E é essa necessidade que o torna vulnerável à
manipulação.
V. A FENOMENOLOGIA DA CRENÇA — O QUE ACONTECE QUANDO CREMOS
5.1.
A experiência da crença
Fenomenologicamente, a crença não é um conteúdo mental entre
outros. É uma estrutura da consciência. Quando creio, minha
consciência se volta para um objeto que ela posta como
verdadeiro — mas que ela não pode verificar.
A crença é, portanto, um ato de posição.
Eu posiciono algo
como verdadeiro. Eu aposto que é assim. Eu me entrego àquilo
que creio.
Essa entrega não é passiva. É ativa. Crer
é decidir crer.
É escolher acreditar.
É assumir o
risco da fé.
5.2.
A intersubjetividade da crença
Mas a crença não é apenas individual. É também social.
Cremos com os outros. Cremos porque
os outros creem. Cremos para pertencer.
A crença é, portanto, intersubjetiva. Ela nos conecta aos outros — e, ao
fazê-lo, nos submete aos outros. Quem crê junto com uma
comunidade aceita as crenças dessa comunidade. E, ao aceitá-las, entrega parte
de sua autonomia.
É aqui que a crença se torna perigosa. Porque
quem controla as crenças de uma comunidade controla essa
comunidade.
VI. A CRENÇA COMO ARMADILHA — A MANIPULAÇÃO DA FÉ
6.1.
O mercado da fé
Afirmo: "É daí que surge o homem a nos enganar pela manipulação da
crença na fé que sabe ele buscamos. Com isso ele nos escraviza, nos
controla/domina pelo o que queremos acreditar, e cremos."
Essa é uma das mais profundas intuições deste ensaio. A crença —
que deveria ser o caminho para o sentido — torna-se o caminho para a servidão...
humana.
O mercado da fé é um dos mais lucrativos do mundo. Igrejas,
seitas, cultos, religiões — todas exploram a necessidade humana de crer. Vendem
sentido, prometem salvação, oferecem esperança. E, em troca, pedem obediência, dinheiro, poder.
6.2.
A indústria da crença
Não é apenas a religião que explora a crença. É também a política
— que vende promessas. É também a mídia — que vende narrativas. É também a
publicidade — que vende sonhos. É também a ciência — que vende certezas.
Vivemos em uma indústria da crença. Todos querem que acreditemos
em algo. Todos querem nos convencer. Todos querem nos controlar pela fé.
E o pior: nós queremos ser controlados. Queremos alguém que
nos diga o que crer. Queremos uma autoridade que nos livre da angústia da
dúvida. Queremos um pai que nos proteja do vazio.
É por isso que tenho razão: a crença nos escraviza —
porque nós mesmos desejamos a escravidão.
VII. A CRÍTICA DA CRENÇA RELIGIOSA — DEUS COMO PROJEÇÃO
7.1.
Feuerbach e a projeção antropológica
Ludwig Feuerbach, no século XIX, formulou a tese que ecoa até
hoje: Deus é a projeção da essência humana. Não é o
homem que foi criado à imagem de Deus; é Deus que foi criado à imagem do homem.
O homem projeta no céu suas qualidades — e seus defeitos. Se é
raivoso, cria um Deus irado. Se é vingativo, cria um Deus punitivo. Se é
escravocrata, cria um Deus que legitima a escravidão.
O deus bíblico — como afirmo em outros textos — é uma
entidade escravocrata, raivosa, malévola, rancorosa, punitiva, vingativa,
ditadora. Não porque Deus seja assim, mas porque os homens que
o criaram eram assim.
7.2.
A desconstrução da imagem e semelhança
Afirmo: "Chego aos meus 70 anos e uns meses sem conseguir acreditar
que etimológica e morfologicamente somos imagem e semelhança de deus; e seres
humanos em sua essência."
Essa é uma desconstrução radical. Não apenas da imagem de
Deus, mas da imagem do humano. Se não somos imagem de Deus, o que somos?
Se não somos humanos em essência, o que somos?
A minha resposta é ao mesmo tempo poética e brutal: "Quem
[Eu] Sou?! Não sou!! No espaço-tempo cronológico, fui e serei o que [Eu]
acredito/creio. Fomos e seremos o que acreditamos/cremos."
Não somos ser. Somos devir. Não
somos essência. Somos crença.
Não somos substância. Somos processo.
VIII. A METAFÍSICA DO DEVIR — HERÁCLITO CONTRA PARMÊNIDES
8.1.
O rio de Heráclito
Se Parmênides diz que o ser é, Heráclito diz que tudo flui.
Ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio mudou, e quem entra também
mudou.
Eu, Professor Negreiros, ao dizer "não sou", estou do
lado de Heráclito. Não há um "eu" fixo, permanente, idêntico a si
mesmo. Há apenas fluxo, mudança, devir.
O que chamamos de "eu" é uma narrativa —
uma história que contamos sobre nós mesmos. E essa narrativa é feita de crenças.
Acreditamos ser algo. E, ao acreditarmos, somos —
provisoriamente, precariamente, temporariamente.
8.2.
A dissolução do sujeito
A consequência dessa metafísica do devir é a dissolução do
sujeito. Não há um "eu" essencial. Há apenas processos, relações, crenças.
O que somos, então? Somos o que acreditamos. Nada mais. Nada
menos.
E isso é assustador. Porque significa que não temos fundamento.
Não temos chão. Não temos segurança.
Estamos suspensos no vazio das nossas crenças.
Mas é também libertador. Porque significa que podemos mudar.
Podemos reconstruir
nossas crenças. Podemos reinventar a nós mesmos.
IX. A CRENÇA COMO ATO POLÍTICO — QUEM CONTROLA A CRENÇA CONTROLA O
MUNDO
9.1.
A política da crença
A crença não é apenas uma questão filosófica ou religiosa. É
uma questão política. Quem controla a crença controla
o mundo.
Os regimes autoritários sempre souberam disso. Eles controlam
a narrativa,
a história,
a verdade.
Eles dizem o que devemos crer. E, ao fazê-lo, moldam o
que somos.
No Brasil de hoje, a extrema-direita controla a
crença de milhões de pessoas. Ela diz em que acreditar: no
"mito", na "família", na "pátria", em Deus, na
"liberdade". E, ao fazê-lo, controla o
voto, a ação, a vida dessas pessoas.
9.2.
A resistência pela descrença
A resistência começa pela descrença.
Pela recusa das narrativas impostas. Pela dúvida
sistemática. Pela desconstrução das crenças herdadas.
Eu, ao dizer "não acredito", estou resistindo.
Estou me recusando a ser moldado pelas narrativas dominantes. Estou [re]afirmando
minha autonomia — minha capacidade de escolher
em que acredita/crer.
Essa é a política da descrença: não aceitar nada como dado,
questionar tudo, construir minhas próprias crenças — sabendo que são
provisórias, precárias, mas minhas.
X. EPÍLOGO — QUEM SOU EU?
Pergunto: "Quem [Eu] Sou?!"
E respondo: "Não sou!!"
Não sou essência. Não sou substância.
Não sou imagem de Deus. Não sou humano em
essência. Não sou racional em sentido etimológico.
Sou o que acredito. Sou o que creio.
Sou o que fui — e o que serei —
na medida em que acreditei e crer.
Sou processo. Sou devir. Sou fluxo.
E, se não sou, então posso ser — a cada momento, a cada escolha, a
cada crença. Não estou preso a uma essência. Não estou condenado a
uma natureza. Estou aberto ao que vier.
Essa é a liberdade que conquistei e mantenho ao longo
de meus já 70 anos: a liberdade de não ser — e, por isso, de poder ser o
que quiser.
— Porque acreditar não é saber. É apostar. É arriscar. É escolher
— sabendo que podemos errar. E é nessa aposta que reside nossa humanidade.
— Ou nossa desumanidade. Porque talvez não sejamos humanos. Talvez
sejamos apenas o que acreditamos ser.
Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes
Em diálogo holístico e transdisciplinar consigo e... com quem queira...
∞
Pesquisador Consultor-Analista
e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente
e Política
∞ Pedagogo, Filósofo e
Rádiojornalista [DRT nº 0772/91-MA]
∞ Pós-Graduado em Docência da
Educação Superior, Gestão e Educação Ambiental, Gestão em Auditoria e Perícia
Ambiental
∞ Especialista em Direito e
Legislação Educacional
∞ Diretor-Presidente e Fundador da
Fundação Brasil de Fomento à Educação Ambiental e Humanística
∞ Imperatriz/MA, São
Miguel/TO – Reserva EcoFloresta Lagoa da Onça – setembro de 2026
Contatos:
prof.negreiros@gmail.com
fundacaobrasileducacional@gmail.com
[99] 98154-0899 – WhatsApp
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[*] “Professor não “dá aula/s”. Portanto, Professor
não é quem “dá aula/s”, quem ministra aulas. Morfológica e Etimologicamente,
Professor [de Professo.... Professar...] é quem Professa; Profetiza;
Profere..., e Proclama Conhecimento, Saber/dor/ia!! Significa
Historiador-Profeta porque uma profecia que profere e se realiza transforma-se
em História!!” – Prof. Negreiros/Deuzimar Menezes Negreiros – Consultor
Transdisciplinar em Educação, Meio Ambiente e Política...
∞ Muy Gracias por leernos