A ENTREVISTA DE FLÁVIO BOLSONARO
À TV GLOBO [16/10/2026]
Por Professor Negreiros, Deuzimar Menezes, rádiojornalista
[DRT nº 0772/91-MA], em diálogo holístico e transdisciplinar... Imperatriz
[MA], 16-17 de outubro de 2026
1. À GUISA DE ANTELÓQUIO: A
FACHADA E A METAFÍSICA DA FALA
A entrevista de Flávio Bolsonaro a Renato Lopresti, na TV Globo,
em 16 de outubro de 2026, não foi um debate. Foi um monólogo disfarçado
de diálogo, uma operação de marketing travestida de
jornalismo. E a análise de suas falas exige o que chamo de metafísica da
fala: a capacidade de ouvir não apenas o que é dito, mas o que
é subliminarmente
insinuado, o que é deliberadamente omitido, o que é transferido
ao adversário como espelho invertido da própria condição
do entrevistado.
Flávio Bolsonaro é um mestre da inversão. Ele acusa o outro daquilo que
ele próprio é. Ele denuncia no adversário os crimes que ele próprio pratica.
Ele projeta no governo democrático as mazelas que ele e seu clã criaram quando
passaram pela presidência do Brasil. Esta análise disseca cada uma dessas
inversões.
2. A ANÁLISE DAS FALAS: O QUE
FLÁVIO DIZ E O QUE ELE ESCONDE
2.1.
“O Brasil está sem presidente”
O que ele diz: O
Brasil está sem presidente, sem governo, sem rumo.
O que ele quer dizer subliminarmente: O
governo Lula não é legítimo. Não reconheço a democracia. O único governo válido
é o meu — ou o do meu pai.
A realidade: O
Brasil tem presidente — eleito democraticamente, com
mais de 60 milhões de votos. Tem governo — que reconstruiu políticas públicas
destruídas pelo bolsonarismo. Tem rumo — que é o da soberania, da justiça
social e da democracia. Flávio Bolsonaro não reconhece o
governo porque não aceita a derrota. Porque não aceita a
democracia. Porque não aceita que o povo escolheu outro caminho, oposto ao do necropai.
A inversão: Flávio
diz que o Brasil está sem presidente. Mas quem tentou dar um
golpe para não deixar o presidente eleito governar foi seu pai.
Quem atacou
as instituições foi seu clã. Quem criou o caos em
que se encontra o Brasil foi a família Bolsonaro.
2.2.
“Não tem governo”
O que ele diz: Não tem
governo, não tem gestão, não tem nada.
O que ele quer dizer subliminarmente: O
governo Lula é inexistente. Ignorem as políticas públicas. Ignorem a
reconstrução. Ignorem os resultados. Ignorem um governo democrático. Ignorem a
democracia!!
A realidade: O
governo Lula existe — e trabalha. Reconstruiu o Bolsa
Família, o Minha Casa Minha Vida, a Farmácia Popular. Retomou as obras paradas.
Recuperou a credibilidade internacional. Reduziu o desemprego. Aumentou o
salário mínimo. Investiu em educação e saúde.
A inversão: Flávio
diz que não tem governo. Mas o governo que não existiu foi
o do pai dele — que passou quatro anos negando a
pandemia, destruindo o meio ambiente, atacando a
ciência, quebrando a economia. O governo que não existiu foi
o do bolsonarismo — que abandonou os pobres, perseguiu os
vulneráveis, entregou o país a um congresso de ladrões e ao capital
internacional.
2.3.
“Vou combater o crime organizado”
O que ele diz: Vou
combater o CV, o PCC, as milícias, as facções, o crime organizado.
O que ele quer dizer subliminarmente: Vou
combater apenas os que não são meus. A milícia, que é
minha, será protegida, assim como parte do CV, do PCC, das facções, do orcrim que
estiverem conosco e forem confiáveis por nós.
A realidade: A
família Bolsonaro é o crime organizado. O pai, Jair, construiu
sua carreira política com apoio de milicianos. O irmão, Eduardo, é investigado
por ligações com milícias. O próprio Flávio teve Adriano da
Nóbrega — chefe do Escritório do Crime, acusado de matar
Marielle Franco — como funcionário de seu gabinete. Seu ex-assessor Fabrício
Queiroz está foragido e tem ligações com milicianos. Orcrim.
A “rachadinha” de seu gabinete envolvia pessoas ligadas à milícia.
A inversão: Flávio
diz que vai combater o crime organizado. Mas ele é o crime
organizado. A milícia não é combatida por
ele — é protegida. As facções que ele diz combater não são as
dele.
2.4.
“Vou defender a família”
O que ele diz: Vou
defender a família brasileira, os valores cristãos, a moral.
O que ele quer dizer subliminarmente: Vou
impor uma única visão de família — a minha. Vou perseguir todas as outras.
A realidade: A
família Bolsonaro não defende a família. O pai negou a
pandemia e deixou mais de 700 mil famílias enlutadas. O clã enriqueceu
com esquemas de corrupção enquanto milhões empobreciam. A “defesa da família” é
apenas retórica para atacar LGBTQIA+, feministas,
indígenas, quilombolas — e proteger os privilégios dos ricos.
A inversão: Flávio
diz que defende a família. Mas quem destrói famílias são as políticas de austeridade que
ele defende — cortes em saúde, educação, assistência social. Quem destrói
famílias é a violência de responsabilidade de cada estado
brasileiro combater, e que ele, Flávio e o clã do qual faz parte não combate —
porque é cúmplice dela, por dela ser parte.
2.5.
“A esquerda quer destruir o Brasil”
O que ele diz: A
esquerda quer destruir o Brasil, a economia, a família, a moral.
O que ele quer dizer subliminarmente: Eu
quero destruir o Brasil — mas vou culpar a esquerda.
A realidade: Quem destruiu o
Brasil foi o bolsonarismo: destruiu a economia [com o
desemprego em massa], destruiu a saúde [com o negacionismo], destruiu a
educação [com cortes e censura], destruiu o meio ambiente [com o desmatamento
recorde], destruiu a imagem do país [com o isolamento internacional].
A inversão: Flávio
diz que a esquerda quer destruir o Brasil. Mas ele é o
destruidor. Ele e seu clã. Ele e seu projeto de poder
ressentido. A rejeição causa raiva, a raiva o ódio. E com a raiva odiosa vem a
necessidade de vingança. A vingança do clã bolsonaro.
3. A POSTURA DA ENTREVISTADORA E
DA IMPRENSA HEGEMÔNICA
3.1.
A cumplicidade cordial
Renato Lopresti adotou a postura da neutralidade falsa:
i.
Não
confrontou Flávio com os fatos de seu histórico familiar;
ii.
Não
questionou a origem miliciana do clã;
iii.
Não mencionou os
projetos de lei do PL que estão prontos para votação a partir de 2027;
iv.
Não cobrou coerência
entre o discurso e a prática;
v.
Permitiu que
Flávio construísse sua narrativa sem contraditório.
A entrevista foi um monólogo disfarçado de diálogo. A
entrevistadora foi cordial — e a cordialidade, diante de um
candidato que representa o autoritarismo, é cumplicidade.
3.2.
A Globo e a blindagem do clã
A TV Globo, como sempre, atuou como escudo do
bolsonarismo. Não por acaso:
i.
Não exibiu as
evidências das ligações de Flávio com a milícia;
ii.
Não
questionou o currículo fabricado/falso de Flávio;
iii.
Não cobrou explicações
sobre a rachadinha;
iv.
Não mencionou os
R$ 8,5 milhões recebidos de Daniel Vorcaro;
v.
Não
confrontou Flávio com os projetos de lei do PL que desmontam o Estado a
partir de 2027.
A Globo protege Flávio porque precisa dele.
Precisa de um candidato que não a confronte, que não a regule, que não a ameace
porque é chantageado em decorrência dos crimes praticados. Precisa de um
candidato que sirva subservientemente aos interesses do
capital estadunidense. De Trump.
4. A METAFÍSICA DA INVERSÃO: O
ESPELHO INVERTIDO
4.1. Flávio Bolsonaro é um espelho invertido.
Ele projeta no adversário tudo o que ele é:
|
O que Flávio diz do adversário |
O que Flávio é |
|
“É
corrupto” |
É réu por rachadinha, recebeu R$ 8,5 milhões de Vorcaro |
|
“É
mentiroso” |
Fabricou currículo, mentiu sobre monografia, mente sobre o pai,
mente sobre si. |
|
“É
criminoso” |
Tem origem miliciana, teve miliciano no gabinete |
|
“É
ditador” |
Quer mudar a Constituição, impor teocracia, censurar |
|
“É
inimigo da família” |
Destrói famílias com políticas de austeridade |
|
“É
inimigo do Brasil” |
Entrega o Brasil aos EUA, destrói a economia, a saúde, a
educação |
4.2. As mentiras e os fatos que as desmentem
|
O que
Flávio disse |
A verdade factual |
|
"Vou
combater o crime organizado" |
Sua família tem origem miliciana; seu ex-assessor Fabrício Queiroz e o
miliciano Adriano da Nóbrega estavam ligados ao seu gabinete. Ele é o
crime organizado. Vai combater ele próprio?! |
|
"Não
vou cortar direitos" |
Os projetos de leis do PL para 2027 extinguem órgãos que garantem
direitos [INCRA, CONAB, FUNASA, DNOCS, CODEVASF]. |
|
"Vou
modernizar o Estado" |
"Modernizar" é o eufemismo para desmontar o Estado
social e transferir suas funções ao mercado. Ao setor privado. |
|
"A
esquerda quer destruir a família" |
Quem destrói famílias são as políticas de austeridade que ele
defende: cortes em saúde, educação, assistência social. |
|
"Vou
governar para todos" |
Seus projetos beneficiam apenas o agronegócio, o
capital financeiro e as elites. Esses são os todos. |
|
"Não
sou como meu pai" |
Ele é pior: herdou o método, aprimorou a retórica e tem
o plano de governo pronto. |
A inversão é a arma mais poderosa da extrema-direita. Ela
confunde, desorienta, paralisa. Quem ouve Flávio sem análise crítica acredita que
o inimigo é o outro — quando o inimigo é ele próprio.
5. À GUISA DE LAIA: A URGÊNCIA DA
DESCONSTRUÇÃO
A entrevista de Flávio Bolsonaro foi uma operação de
guerra psicológica. Cada fala foi calculada para:
i.
Confundir o
eleitor;
ii.
Deslegitimar o
governo Lula;
iii.
Vitimizar o
clã Bolsonaro;
iv.
Projetar no
adversário as próprias mazelas de provoca;
v.
Preparar o
terreno para o golpe. Isso ficou claro nas inferência!!
A esquerda precisa desconstruir essa narrativa com fatos, evidências, análise
crítica. Não basta dizer que Flávio mente. É preciso provar que
ele mente, mostrar as contradições, expor
as inversões.
A tarefa é urgente. O tempo é curto. A democracia está em jogo.
— Porque o espelho invertido só engana quem não sabe olhar. E a
verdade, quando exposta, desmonta a farsa.
Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes
Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA
Em diálogo holístico e transdisciplinar...
Imperatriz [MA], 17 de outubro de 2026