terça-feira, 29 de setembro de 2026

MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM

 AS MORTES QUE AS BETS JÁ CAUSARAM E A PROIBIÇÃO COMO ACERTO HISTÓRICO

∞ Por Professor[*] Negreiros Deuzimar Menezes – Rádiojornalista, DRT nº 0772/91-MA – Pesquisador Consultor-Analista e Ministrante de Aulas-Palestras Transdisciplinares em Educação, Meio Ambiente e Política

 

I. À GUISA DE ANTELÓQUIO: O RASTRO DE SANGUE QUE A MÍDIA NÃO MOSTROU

Início fazendo uma pergunta direta e brutal: quantas mortes, quantos assassinatos já ocorreram em família por causa dos vícios nos jogos nas bets? E mais: é um acerto social o governo Lula ter proibido as bets?

 

A resposta exige coragem para encarar o que a grande mídia, financiada pelos anunciantes das bets, preferiu esconder. Exige também rigor para separar o que é dado empírico do que é retórica política.

 

Não há um número oficial consolidado de mortes diretamente atribuídas às bets no Brasil — porque o Estado nunca tratou o problema como questão de saúde pública, e a Justiça arquivou processos por falta de provas. Mas os rastros existem. E são profundos.

 

II. O QUE OS DADOS REVELAM

2.1. Os custos sociais mensurados

Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde [IEPS] estimou que os danos associados a apostas e jogos de azar no Brasil geram um custo social anual de R$ 38,8 bilhões. Desse total:

a.        R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio;

b.       R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão;

c.        R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão;

d.       R$ 1,3 bilhão por perda de moradia;

e.        R$ 2,1 bilhões em benefícios de seguro-desemprego;

f.         R$ 4,7 bilhões por encarceramento decorrente de atividade criminal.

 

O dado é estarrecedor: R$ 17 bilhões — quase metade do custo social total — estão associados a suicídios ligados ao vício em apostas.

 

2.2. A subnotificação e o silêncio institucional

Esses números, porém, são estimativas. A realidade pode ser pior.

Em julho de 2026, a influenciadora e servidora do IML de Anápolis [GO], Sharen Machado, relatou publicamente que, em apenas três plantões recentes, presenciou seis casos de autoextermínio com relatos de familiares ligando as mortes a dívidas de apostas.

 

“Atinge todos os públicos: de gente rica a gente pobre, de pessoas com empregos dos sonhos a baixa renda, de jovens a pessoas mais idosas... deixando carta, falando que não aguentava mais e tirando a própria vida”, detalhou a servidora.

 

A professora Vânia, de Uberlândia [MG], perdeu o filho Rafael Borges Amaral, de 26 anos, para o suicídio após meses de endividamento e isolamento causados pelo vício em bets. Ela tentou responsabilizar os influenciadores que bombardearam o filho com publicidade, mas a Polícia Civil e o Ministério Público arquivaram o caso por falta de provas.

 

“A polícia me recebeu com bastante indiferença. Por ser um auto-extermínio, pressupõe-se que não há uma pessoa que tenha diretamente contribuído para a morte”, desabafou Vânia.

 

2.3. A violência intrafamiliar

A violência doméstica associada às apostas é outro dado que emerge dos estudos. Segundo dados compilados no dossiê “Brasil Sem Azar”, 45% dos casos de dívidas com apostas relatam impacto direto na família, com escalada de conflitos financeiros, tensão psicológica, negligência familiar e rupturas.

 

O caso mais brutal documentado ocorreu em Vespasiano [MG], em julho de 2025. Matteos França Campos, de 32 anos, estrangulou a própria mãe, a professora de História Soraya Tatiana Bomfim França, de 56 anos, após uma discussão sobre dívidas com apostas online. Ele ocultou o corpo sob um viaduto, simulou o desaparecimento da mãe e tentou despistar os investigadores.

 

A delegada responsável foi categórica: “Ele participava de jogos de apostas na internet, o que o levou a ter um colapso financeiro. Esse problema foi motivo de várias discussões entre eles”.

 

Este é um assassinato em família diretamente ligado a bets.

 

III. A PROIBIÇÃO: ACERTO OU OPORTUNISMO ELEITORAL?

3.1. O que a proibição representa

Em 25 de setembro de 2026, o governo Lula publicou a Medida Provisória 1.394/2026, proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida revogou a regulamentação anterior [Lei 14.790/2023] e determinou que as plataformas saiam do ar a partir de 6 de outubro.

 

A decisão veio nove dias antes das eleições de 4 de outubro, o que gerou acusações de oportunismo eleitoral.

 

3.2. O contexto histórico: quem criou o problema

Para avaliar se a proibição é um acerto, é preciso entender a trajetória:

1.      2018 – Governo Temer: As apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei 13.756/2018, no apagar das luzes do governo Michel Temer. A lei previa regulamentação em até quatro anos.

2.      2019-2022 – Governo Bolsonaro: A regulamentação não foi feita. As bets operaram sem regras por pelo menos cinco anos, devastando famílias e drenando bilhões da economia popular.

3.      2023 – Governo Lula: O governo enviou ao Congresso a regulamentação. Lula sancionou a Lei 14.790/2023, que criou regras de licenciamento, tributação e proteção ao consumidor.

4.      2024 – Regulamentação em vigor: A partir de 1º de janeiro de 2025, as bets autorizadas passaram a operar sob regras — proibição de cartão de crédito, vedação de bônus, restrições à publicidade, mecanismos de autoexclusão.

5.      2026 – A proibição: Diante da constatação de que a regulação não funcionou — os danos sociais continuaram, as perdas das famílias atingiram R$ 62,5 bilhões, e as suspeitas de lavagem de dinheiro se multiplicaram — o governo optou pela proibição total.

 

3.3. O acerto social

Sim, a proibição é um acerto social.

Os argumentos são sólidos:

1.      A regulação falhou em proteger os vulneráveis. A lei determinava que empresas bloqueassem usuários compulsivos, mas “isso nunca ocorreu”, segundo o advogado Júlio Leone.

2.      O modelo de negócio é predatório por natureza. As bets não são entretenimento; são máquinas de extração de renda da população pobre. Dados do Banco Central mostram que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para bets em agosto de 2024.

3.      As perdas das famílias são insustentáveis. Só no último ano, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets—uma média de R$ 4,7 bilhões por mês.

4.      O custo em vidas humanas é inaceitável. R$ 17 bilhões em suicídios. Seis autoextermínios em três plantões. Uma mãe estrangulada pelo filho. Uma professora que perdeu o filho e não conseguiu justiça. Esses números e histórias não são abstratos — são o preço que a sociedade pagou pela omissão do Estado.

 

3.4. O que a proibição não resolve

A proibição é um avanço, mas não é suficiente. É preciso:

a.        Tratamento para os viciados: O SUS precisa de uma rede de acolhimento para ludopatas. Já há esforços nesse sentido, mas são insuficientes.

b.       Responsabilização dos influenciadores: A professora Vânia quer ver os influenciadores na Justiça. Ela os chama de “traficantes modernos”. A CPI das Bets rejeitou o relatório final que pedia o indiciamento de 16 responsáveis por empresas de apostas e influenciadores.

c.        Combate ao mercado ilegal: A proibição atinge as bets autorizadas, mas o mercado clandestino pode prosperar. A fiscalização é essencial.

d.       Educação financeira e prevenção: É preciso ensinar as crianças e jovens que apostar não é investimento — é ilusão.

 

IV. CONCLUSÃO: UM ACERTO COM GOSTO DE URGÊNCIA

O governo Lula acertou ao proibir as bets. Mas acertou tarde — tarde demais para Soraya, tarde demais para Rafael, tarde demais para os seis suicidas de Anápolis, tarde demais para as milhares de famílias destruídas.

 

A proibição foi anunciada a nove dias das eleições, o que levanta a suspeita de oportunismo. Mas a suspeita não invalida o acerto. Se o governo tivesse proibido as bets em 2023, quando sancionou a regulação — ou em 2024, quando Lula disse “se a regulação não der conta, eu acabo com elas” — o rastro de mortes seria menor.

 

O problema não é a intenção. É o tempo.

A pergunta que fica é: por que o Brasil esperou tanto? Por que a CPI das Bets foi arquivada? Por que a Polícia Civil tratou o caso de Rafael com “indiferença”? Por que a grande mídia, que lucrou com a publicidade das bets, só agora noticia o problema?

 

A resposta está na mesma lógica que eu denuncio em meus escritos: o capitalismo transforma a vida em mercadoria e a morte em estatística. As bets eram [e são] um negócio lucrativo. Os influenciadores ganhavam comissão. As plataformas de mídia faturavam com anúncios. O Congresso estava capturado.

 

A proibição das bets é um acerto. Mas é um acerto arrancado à força — pela pressão da sociedade civil, pelas mães que perderam filhos, pelos profissionais de saúde que viram o colapso nos CAPS, pelos servidores do IML que contam os corpos.

 

Não é uma vitória do governo. É uma vitória da resistência.

 

— Porque a vida não é um jogo. E a morte não é uma aposta.

 

Professor[*] Negreiros, Deuzimar Menezes

Em diálogo holístico e transdisciplinar com a sociedade vítimizada pelas bets e políticos...

Imperatriz [MA], 29 de setembro de 2026

 

Contatos:
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